Freud emoções e desejos

Um Método Perigoso vê nascer ciência que pode mitigar a dor da existência

A.O. SCOTT, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2011 | 03h07

O novo filme de David Cronenberg, Um Método Perigoso, que deve estrear em 10 de fevereiro no Brasil, começa com uma cena de histeria. Uma mulher, que enfermeiros pouco visíveis tentam inutilmente conter, se contorce e grita numa carruagem, mas a crise nervosa é praticamente inaudível diante do barulho dos cascos dos cavalos e do som estridente da trilha sonora.

Ela é Sabina Spielrein (Keira Knightley), uma jovem perturbada de origem russa a caminho de uma clínica de Zurique, em algum momento do início do século 20. Essa introdução abrupta e um tanto assustadora é o prenúncio enfático de algumas das intenções do filme.

O tema de sua análise - aliás, um termo clínico que tem tudo a ver com essa sutil história real intelectualmente estimulante - é a luta entre desejos e emoções incontroláveis e os esforços para domá-los e contê-los.

A espantosa violência da doença de Sabina, que, mesmo nos momentos de relativa calma, a transforma em um ser que se contorce e cospe, é também um sinal de que, apesar das aparências, Um Método Perigoso (baseado na adaptação para o teatro de autoria do roteirista do filme, Christopher Hampton, de uma obra do escritor John Kerr) não é mais uma respeitável festa à fantasia para a temporada do Oscar. O rigor e a repressão que conhecemos aqui não são os produtos exóticos de uma ordem social que pertence ao passado. Ao contrário, nós testemunhamos o nascimento doloroso, libertador e aterrador de uma forma distintamente moderna de compreender e tentar mitigar em parte a dor e a intensidade peculiares da própria existência.

Sabina é tratada em Zurique por Carl Jung (Michael Fassbender), que define o novo método de tratamento de doenças desse gênero como "psicanálise". Em Viena, o mentor de Jung corrige o discípulo - acha que soa mais lógico pôr um "o" no meio - e como o mentor em questão é ninguém menos que Sigmund Freud (Viggo Mortensen), o jovem médico acata a sugestão.

Em episódios que se passam entre 1907 e as vésperas da Primeira Guerra, Um Método Perigoso descreve a transformação das relações entre seus principais personagens. Sabina é paciente de Jung, sua amante e posteriormente colega. Ao mesmo tempo, Freud e Jung integram um complexo drama edipiano, em que o analista mais jovem, discípulo promissor de Freud, se torna o seu herdeiro e então um perigoso rebelde, cujos interesses místicos contradizem diretamente a ortodoxia psicanalítica.

Um Método Perigoso está repleto de conceitos sobre a sexualidade, mas também reconhece e destaca o poder erótico das ideias. Há cenas de perversão sexual entre Sabina e Jung, mas os aspectos mais perturbadores são talvez as relações que o filme sugere entre sexualidade e pensamento. A mente é ao mesmo tempo escrava e senhora dos apetites do corpo, e tanto o filme quanto as figuras que o habitam entregam-se à tarefa aterradora de estabilizar essa dinâmica.

O mais emocionante do filme é ver Freud, o gênio atormentado, restituído às suas dimensões humanas por Mortensen, cuja atuação é tão convincente que qualquer outra do patriarca da psicanálise será praticamente irrelevante. Sabina, Jung e Freud participam de uma expedição ao território desconhecido do inconsciente. Jung e sua paciente o fazem com a consciência da novidade e do risco implícito. A percepção de pisar numa terra nova torna Um Método Perigoso quase um romance de aventura.

Cronenberg é um dos grandes cultores vivos do gênero do horror. Depois das suas películas sensacionais da década de 80 (como Scanners, Sua Mente Pode Destruir, Gêmeos, Mórbida Semelhança e A Mosca), nos últimos tempos ele começou a trabalhar de maneira mais clássica e menos radical. Com longos e graves discursos científicos eruditos, Um Método Perigoso pode parecer o filme mais calmo e mais cerebral do diretor.

O que ele de fato é, e também não é. A atmosfera silenciosa nos permite captar estremecimentos de terror, enquanto nas composições precisas de Cronenberg sussurra a possibilidade latente do caos e da destruição. Jung, com sua estudada polidez protestante, parece personificar o ideal do decoro germânico. Sério, atencioso e curiosamente passivo, parece conscientizar-se dos seus sentimentos somente quando outras pessoas os apontam para ele.

Uma delas é Otto Gross (Vincent Cassel), outro analista, enviado para ele por Freud, que se revela uma emanação ferina do "id" essencial, a verdadeira representação da perversão freudiana. Otto não só dorme com as pacientes, como também acha o menosprezo pelas normas uma necessidade terapêutica e moral.

Sabina e Otto representam a anarquia do inconsciente freudiano - a força perturbadora da libido não domesticada - e o que poderíamos chamar de princípio cronenberguiano do irreprimível. As expressões faciais e as audaciosas contorções corporais de Keira parecem calcadas na iconografia da histeria do século 19. Mas Sabina, a reencarnação de personagem de uma era anterior ao Prozac, é também um espírito excepcionalmente moderno, cujos tormentos são tão reconhecíveis quanto os seus sintomas bizarros. E Jung, que busca desesperadamente decifrar os significados mais profundos e símbolos obscuros, é certamente uma pessoa como nós, um habitante ambivalente do universo descoberto por Freud. Um Método Perigoso é um filme inquietante justamente porque o mundo que ele descreve é o único que conhecemos. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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