Frente a frente com o inaudito

Em entrevista exclusiva, Michael Cunningham, o premiado autor de As Horas, fala de seu novo romance, Ao Anoitecer, que põe em cena a vida revirada de um marchand na Nova York pós-11/9

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

O novo romance do escritor norte-americano Michael Cunningham, Ao Anoitecer, que chega este fim de semana às livrarias, se passa nas redondezas onde o autor ambientou parte do seu premiado As Horas (Pulitzer de melhor romance) e vive com o companheiro Ken Corbett, psicanalista que conheceu há 24 anos. Isso significa que Cunningham conhece intimamente tanto a paisagem local como vizinhos parecidos com seus personagens, nova-iorquinos de alto poder aquisitivo que, a despeito do conforto material garantido pelas profissões que escolheram, não escapam de crises existenciais. No caso do marchand Peter Harris, protagonista de Ao Anoitecer, um quarentão casado e dono de uma galeria de arte, essa crise é detonada pela perturbadora presença do irmão mais novo da mulher em sua casa, Ethan, um dependente químico.

Não só o uso de drogas pelo irmão de Rebecca provoca incômodo no galerista. A beleza de Ethan, ou Mizzy (de Mistake, "erro", em inglês), como é chamado o garoto, conduz o marchand à perdição, como o personagem de Morte em Veneza, de Thomas Mann. Desacreditado da arte contemporânea e sem porto seguro para suas crenças estéticas, Peter vê seu casamento e sua carreira ameaçados por um pária. É sobre o assunto, a vida estável da classe média americana abalada pela presença do inaudito, que Cunningham conversou com o Sabático na entrevista a seguir.

É possível que Ao Anoitecer não seja exatamente o romance que você pretendesse escrever sobre a Nova York que surge depois dos atentados de 11 de Setembro. Era sua intenção construir um épico sobre ela antes de se decidir a tratar de um marchand em crise de meia-idade?

Não estou bem certo se minha intenção era escrever um épico sobre a Nova York pós-11 de Setembro. Não sou muito inclinado ao gênero, não no sentido de produzir sagas multigeracionais com milhares de páginas. Minha ambição vai na direção oposta. Uma das razões porque amo tanto Virginia Woolf e James Joyce é que ambos escreveram grandes romances cujo foco foram pequenos acontecimentos. Livros como Mrs. Dalloway ou Ulysses podem ser considerados épicos, embora ambos digam respeito a um único dia na vida de pessoas relativamente comuns. Isso me toca, especialmente no século 21, em que nos descobrimos mais anônimos a cada dia. Num mundo que insiste em ver seus habitantes como consumidores, como dados demográficos, parece que uma grande parte do trabalho do escritor é insistir justamente na particularidade do indivíduo.

E você busca, de fato, a palavra "exata" para definir essa particularidade, como Flaubert fazia no passado. Você se definiria como um formalista?

Tenho muita reverência pela linguagem - como cada palavra soa individualmente, como ela se relaciona com outras numa frase, como ela se encadeia com a seguinte. Para mim, a linguagem tem tudo a ver com música. Uma frase, um parágrafo, não devem ser unicamente belos. A prosa, como a música, deve ter uma direção e força comparáveis às sonatas de Beethoven e aos riff jazzísticos de John Coltrane. Embora não aparentem, todos os meus seis livros são, de algum modo, versões de algum tipo de música. Meu primeiro romance, Uma Casa no Fim do Mundo, era rock"n"roll. As Horas tinha a ver com Schubert e Brahms. Já Ao Anoitecer estaria mais para Laurie Anderson e Brian Eno. Não sei se essa resposta faz sentido, mas cada um desses livros foi inspirado por ritmos de peças musicais.

Para uma peça musical que se pretende de câmara, Ao Anoitecer, a despeito de sua despretensão, trata de temas bem sinfônicos, grandiosos, como vidas que afundam em drogas, a falta de sentido da família burguesa, as contradições de quem gosta de arte e é obrigado a vender lixo. Você diria que é esse estilo de vida nova-iorquino que faz as pessoas serem tão ricas como personagens literários e tão pobres como seres humanos?

É verdade que Nova York atrai e encoraja pessoas extremamente ambiciosas, estejam elas atrás de dinheiro ou de uma carreira na Broadway. Isso as torna ricas como personagens - gente com direção e desejos, afinal, são mais interessantes. Não diria que Nova York leve pessoas a serem desumanas, mas não é incomum que, ao colocar foco exclusivo na carreira, muitos percam de vista valores fundamentais como amor, caridade e até mesmo percam a sua alma. Uma das razões pelas quais sou fascinado por Nova York é que ela reflete como um espelho a sociedade capitalista americana, ambiciosa, materialista, excessiva a ponto de renegar seu senso de humanidade. Isso está mudando com o declínio da América. Talvez vejamos, no futuro, uma nação menos avara, mais humana.

Você considera o romance um meio mais eficaz que o cinema para lidar com temas complexos como esse? Como vê, por exemplo, a adaptação de As Horas?

Não acho que o romance seja um gênero superior ao cinema como forma artística, mas creio que os filmes possam ir além dos livros. Num filme como As Horas, por exemplo, é possível mostrar uma atriz genial como Julianne Moore consumida em lágrimas num banheiro enquanto diz ao marido, através da porta fechada, que tudo está bem, num tom de voz absolutamente normal. A literatura, contudo, permanece a melhor forma de mostrar ao leitor o que é ser uma pessoa bem diferente de si mesma. Ela pode explorar o interior mais profundo das pessoas, seus sentimentos e pensamentos mais secretos, produzindo uma empatia que nenhum outro veículo conseguiria. Conhecemos personagens como Anna Karênina ou Emma Bovary mais profundamente do que poderiam ousar as versões para o cinema. Este é, acho, o mais poderoso argumento a favor da literatura como uma forma de arte que resiste. Isso implica, por consequência, que a ficção seja inerentemente política, mesmo que a história em questão nada tenha a ver com política. Se os leitores entenderem verdadeiramente que outras pessoas são verdadeiras e profundas como eles, pelo menos em teoria, estarão menos propensos a atirar bombas na cabeça dos outros. Fiquei muito feliz com a transposição de As Horas para o cinema, o que me torna, talvez, o único autor vivo contente com um filme baseado num livro seu.

Você mesmo teve experiências como roteirista. Só para mencionar dois filmes, houve a bela adaptação de Evening para Lajos Koltai, em 2007, após sua primeira experiência, em 2004, ao adaptar A Casa do Fim do Mundo para Michael Mayer. E, agora, parece, um retorno às telas com uma nova versão de A Outra Volta do Parafuso. Foram experiências muito diferentes da literatura?

Adoro escrever roteiros. Literatura será sempre minha primeira ocupação, mas produzir para o cinema é também gratificante. Um roteiro é uma fascinante combinação de criatividade com quebra-cabeças. Um romance pode tomar a forma que o escritor quiser e ficar tão extenso quanto ele deseje. Um roteiro tem de se adaptar à duração do filme, a não ser que seja uma produção anticonvencional. Ele pode ser alterado, de modo imprevisível, pelo diretor, por atores, por qualquer um. Enquanto, como romancista, tenho autonomia e pleno controle sobre o texto, como roteirista tenho de estabelecer a base fundamental para uso dos artistas, que irão interferir no texto com suas próprias visões. Após tantos anos trabalhando sozinho, é muito gratificante participar desse processo coletivo de criação.

Hoje em dia parece muito comum a história de gente mais velha se apaixonar por jovens. Você se inspirou em pessoas reais para criar os perturbados Mizzy e Peter? Seu companheiro, Ken Corbett, ajudou-o a entender as razões dessas relações intergeracionais?

Embora tenha certas reservas sobre uma cultura obcecada pela juventude, não há como negar o apelo da juventude, seja porque o jovem ainda é uma pessoa em formação, seja porque seu futuro é incerto. Tendemos a amar a promessa, ainda mais quando envelhecemos e nossas vidas futuras se tornam previsíveis. Mizzy é vagamente inspirado em diferentes pessoas. Queria que ele fosse simultaneamente uma pessoa e um objeto para Peter. Um objeto de arte, se você preferir. Peter é heterossexual. Bem, 99% heterossexual, razão pela qual quis que ele fosse obcecado por um garoto, e não por uma garota. O fato é que ele ama Mizzy e sente-se, de alguma forma, atraído por ele, embora não deseje fazer sexo, detalhe fundamental para o tema do livro. Não é exatamente a história de um homem mais velho perseguindo com luxúria um jovem, mas a de um homem atrás da beleza na arte, encontrando-a, para sua surpresa, incorporada numa pessoa. Ken Corbett é meu primeiro e mais importante leitor até hoje. Ajuda que ele seja um psicanalista, embora essa não seja sua primeira qualidade como leitor. Ele é superinteligente. Sabe sempre o que quero dizer, tem um jeito único de apontar os trechos em que meus livros parecem à deriva, em que são muito sutis ou óbvios. É difícil achar um leitor como ele.

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