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Frend Inglis lança 'Breve História da Celebridade' no Brasil

Fama leva à inveja, e a inveja à difamação, diz o inglês em seu livro, que vai de Byron a Marilyn

ANTONIO GONÇALVES FILHO - O Estado de S.Paulo,

12 de novembro de 2012 | 02h08

Professor emérito de Estudos Culturais da Universidade de Shefield, na Inglaterra, o historiador inglês Frend Inglis já escreveu mais de 20 livros de temas os mais variados, da Guerra Fria ao jornalismo político, nenhum deles traduzido no Brasil. Seu primeiro livro publicado aqui, Breve História da Celebridade, já está nas livrarias. Por mais que o título possa sugerir um tratamento superficial do culto a pessoas famosas, ele é um livro de história com maiúscula. Em entrevista exclusiva ao Caderno 2, o professor Inglis contesta cientistas sociais que colam o adesivo da celebridade a uma invenção de publicitários modernos. Sua conclusão é a de que o comércio da celebridade "foi concebido ao longo de dois séculos e meio".

Está certo que o teórico marxista francês Guy Debord, ao escrever A Sociedade do Espetáculo, não estava pensando, ao contrário de Inglis, nas célebres excursões reais de Elizabeth I para mostrar seu glamour e poder à plebe rude das ruas. Mas seria isso um espetáculo, uma vez que o adjetivo "espetacular", lembra o próprio Inglis, só aparece associado às palavras "imponente", "dramático" e "ambicioso" em 1901, no dicionário Oxford? Debord, reconhece o professor, fala de espetáculo num sentido bem diverso das excursões elisabetanas. De fato, o francês trata mais do "fetichismo da mercadoria" que contamina tudo o que é vivido.

Elizabeth I, no dia 14 de janeiro de 1559, véspera de sua coroação, saiu em carruagem precedida por mil cavaleiros, vestida com um modelito folheado a ouro e carregando mais joias do que o acervo do Topkapi. O desfile passou por uma Cheapside decorada com grandes pôsteres pintados dos monarcas ingleses e culminou numa suntuosa e alegórica representação teatral - com cenário e tudo -, em que estavam representadas duas montanhas: uma seca e outra florida.

A primeira era o "mau governo". A segunda, florida, seria, claro, o reinado de Elizabeth, que prometia derramar o próprio sangue pelo povo. Foi "mais que um desfile", observa Inglis. "Na verdade, era uma estratégia para afirmar o carisma, a irradiação da figura pública grave e dramática de Elizabeth I". Mal sabia a rainha que sua excursão abriria caminho para Lord Byron e Madonna.

O ponto de partida do livro é a Londres de meados do século 18, embora o primeiro exemplo de personagem famoso que cite seja Elizabeth I, que reinou entre 1588 e 1603 e prendeu Mary, a rainha dos escoceses, mandando executar a rival. Espontaneamente, argumenta Inglis, a cidade forjou a versão de autênticas celebridades com a nova cultura urbana londrina surgida no século 18 e a competição entre novos e velhos ricos. Desde a época de Elizabeth I, em que viveram Shakespeare e Marlowe, ir ao teatro era obrigatório para quem desejasse ser uma celebridade, mesmo correndo o risco de se ver caricaturizado no palco. No século 18, assegura Inglis, essa prática não caiu em desuso. Ele cita como exemplo máximo a comédia de Richard Brinsley Sheridan, A Escola do Escândalo (The School for Scandal, 1777), que faz da fofoca e do escândalo seu tema.

Sheridan, comenta Inglis, usa a fofoca porque sabe que ela "serve apenas para que preservemos a reputação de nosso grupo, excluindo os demais". Esse é um dos motivos pelos quais a celebridade atrai escândalos, conclui o historiador. "A fama convida à inveja, e a inveja à difamação", escreve em seu livro. Desse mecanismo deriva, como já havia observado o francês Guy Debord, a prática industrial de criar e destruir reputações pela produção e venda da celebridade por meio da TV, de revistas populares e da publicidade. O público vibra quando as qualidades de seus ídolos são maculadas pelos atos dos poderosos. "É da natureza do escândalo flertar com a celebridade, especialmente se ele for sexual". A família real britânica, por exemplo, tem sido generosa em alimentar a mídia, desde que o príncipe de Gales montou casa para a amante em Brighton, passando pela infidelidade da princesa Diana e a intensa atividade sexual de seu filho Harry.

Seria injusto, porém, imputar a Londres toda a culpa pelo advento do culto à celebridade. Se a sociedade de consumo londrina inventou formas de lazer urbano - como os chamados 'pleasure gardens', jardins públicos para concerto -, Paris, depois de 1851, vira a cidade do espetáculo urbano, diz Inglis, apontando como comentaristas sociais os pintores Manet, Renoir e Toulouse-Lautrec. De fato, quem quiser saber como era o 'grand monde' francês do século 19 - as roupas, a moda, os hábitos da burguesia francesa - terá de passar necessariamente pelas telas dos mencionados artistas. Paris, afirma o autor, "é o primeiro lugar que coloca a mera aparência - o visual, as roupas finas, a ostentação calculada - no centro da fama". Nova York, completa o historiador, "industrializou a fofoca e fez do dinheiro sinônimo de glamour".

Esse novo valor, o glamour, preparou o terreno da propaganda e da fabricação da celebridade no século 20 - mais precisamente, após o fim da 1.ª Guerra. O lazer dos americanos na Riviera Francesa, povoada tanto por milionários (os Richthofens e companhia) como por escritores (F. Scott Fitzgerald), serviu de modelo para candidatos à fama. Inglis passa pelas revistas que glamourizavam esse estilo de vida, chegando a Hollywood, que forjou o star system, transformando em deusas ex-garotas de programa e em astros gente de passado um tanto duvidoso. No entanto, o autor enfatiza que seu livro não é uma "imprecação contra o culto às celebridades". Curiosamente, diz que Cary Grant, por exemplo, "foi sufocado durante toda a sua vida por uma afeição pessoal, quase como se ela pudesse dissolver o distanciamento do célebre e torná-lo próximo e digno da estima de todos".

De fato, Grant era estimado e foi o primeiro ator independente de Hollywood a criar a própria companhia, mas não escapou das fofocas, ao contrário do que afirma Inglis. O historiador, seu fã, escreve que, de alguma forma, Grant colocou-se o tempo todo acima da contaminação moral. Cinco casamentos bastariam para isso? Não para os fofoqueiros, que asseguram ter sido Cary Grant amante de Randolph Scott por 12 anos.

Um argumento de Inglis explica a razão de Grant não ter sido atingido pelas fofocas: como é próprio do sexo masculino, os homens escapam mais facilmente dos escândalos que as mulheres. Até mesmo na "sórdida confusão" sobre sua morte, Marilyn Monroe, que foi amante do presidente John Kennedy, "permaneceu imaculada", mas isso não significa que Norman Mailer estava errado ao pintar um retrato horroroso da atriz. Sobre os Kennedys, ele diz que eles "dramatizam a lacuna entre a figura pública e o ser privado com uma força sem precedentes". Inglis concorda que Marilyn viveu a fama ao extremo - truísmo, admite, repetido até pelo célebre ex-marido, o dramaturgo Arthur Miller, que, ao ouvir a notícia de sua morte, disse simplesmente: "Tinha de acontecer, era inevitável".

Ao buscar em Brigitte Bardot a correspondente francesa de Marilyn Monroe, Inglis faz da atriz um exemplo de celebridade destruída por ignorar a ligação entre sentimento popular e beleza jovial. Bardot, aliás, participou há 50 anos de um filme quase biográfico, Vida Privada, de Louis Malle, sobre uma atriz acossada por fãs e paparazzi que é levada a um sanatório para se recuperar.

Os melhores capítulos de Breve História da Celebridade são os dedicados à análise da ascensão e invenção da celebridade. Num deles, o quarto, o historiador fala do papel fundamental que as mudanças urbanísticas e arquitetônicas introduzidas em Paris na época de Haussmann tiveram na disseminação do culto aos famosos. Tomando de empréstimo o livro inacabado de Walter Benjamin, Passagens, Inglis fala das lojas de departamentos e galerias que comprimem a cidade e fazem com que seus interiores se comparem à sala de jantar - e também ao quarto - de afortunados e beldades que circulam por elas. Tudo começou, conta ele, porque um vendedor de tecidos chamado Aristide Boucicaut se perdeu na Exposição Universal de 1865 e teve a ideia de contratar o arquiteto Eiffel (o mesmo da torre) para projetar as instalações do Bon Marché, "primeira loja de departamentos dessa e de qualquer outra capital".

A relação consumo e celebridade não começa aí, mas ganha novos contornos com uma loja de departamentos onde era possível flanar e admirar as roupas finas dos modelos das vitrines e invejar os trajes dos bem-aventurados. Luxo, exibição e ostentação são palavras que vêm dessa época, em que um novo sistema de classes tomava forma, segundo o historiador.

Nesse contexto da Paris que vira a Meca da extravagância, surge Sarah Bernhardt (1844-1923), que, define Inglis, "deu forma e conteúdo à figura da atriz como gênio da celebridade". Como o excêntrico e bon vivant poeta Byron, "ela forjou para si própria e para celebridades futuras o novo papel de heroína nacional ". Sarah Bernhardt, que teve de amputar uma perna por causa de um acidente no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, em 1905, segundo Inglis, foi a "a primeira estrela internacional" - de uma magreza anoréxica, pálida como uma pintura pré-rafaelita, mentirosa, impulsiva, hipersexuada e, para finalizar, uma louca que viajava sempre com um lince, um jacaré e uma jiboia de estimação.

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