Freire-Filho volta aos palcos do Rio em dose dupla

Depois de um período de quase dois anos fora da cena brasileira, o diretor Aderbal Freire-Filho volta a mostrar seu talento nos palcos cariocas. Ele é o diretor tradutor e protagonista de um espetáculo que vem encantando o público no Teatro Ziembinski, no Rio, Luzes da Boemia, de Ramón del Valle-Inclán. E ainda dirige as atrizes Débora Bloch e Fernanda Torres na peça Duas Mulheres e um Cadáver, de Patrícia Melo, que estréia quinta-feira no Teatro das Artes, no Rio, e deve iniciar temporada em São Paulo no Teatro Cultura Artística, em março.O diretor define como uma comédia contemporânea a primeira peça escrita pela autora do romance policial O Matador, que traça um divertido perfil da mulher atual. No palco, Fernanda e Débora vão viver respectivamente a amante e a mulher de um psicanalista (Ricardo Pavão) assassinado.A forte ligação artística de Freire-Filho com a Espanha - onde é curador do Festival de Cadiz - e com o Uruguai, onde trabalha como diretor com bastante freqüência, provocou o afastamento do diretor do País por uns tempos. Ano passado, ele foi convidado para criar um espetáculo em comemoração dos 50 anos da internacionalmente premiada companhia teatral uruguaia El Galpón.Escolheu Luzes da Boemia, texto do espanhol Valle-Inclán (1866-1936) e o espetáculo estreou em junho do ano passado, em Montevidéu. Freire-Filho repetiu no Brasil a mesma concepção já criada para o El Galpón, com novo elenco - integrado por Ricardo Blat e Marcos Breda, entre outros, além do próprio diretor, que não atuou em Montevidéu - e a mesma equipe técnica uruguaia: o cenógrafo Oswaldo Reyno, o figurinista Nélson Mancebo, o músico Coriún Aharonian e o iluminador Juan Carlos Moretti."No Brasil, resolvi atuar porque não encontrei um ator para o papel, mas isso só foi possível porque o espetáculo já estava concebido", diz. Na verdade, Freire-Filho iniciou sua carreira como intérprete e atuou - com sucesso - em outros espetáculo que dirigiu, entre eles O Tiro que Mudou a História, encenado no antigo Palácio do Catete, no qual ele interpretava o irmão do ex-presidente Getúlio Vargas.A temporada de Luzes da Boemia vai até o dia 13 no Ziembinski e, a partir do dia 17 de agosto, o espetáculo será transferido para o Teatro Carlos Gomes, também no Rio. Por enquanto, não há previsão de que realize uma temporada em São Paulo.Périplo - Essa peça parece ter o dom de atrair a paixão dos diretores. Em São Paulo, William Pereira também realizou duas montagens da mesma peça, em 1995 e 1998. "Trata-se de um texto absolutamente extraordinário, que no Brasil não tem a relevância que merece", afirma Freire-Filho. A ação da peça se passa numa única noite e acompanha o périplo do poeta cego Max Estrella (Freire-Filho) desde a sua partida de casa no início da noite, até sua morte, que ocorre ao amanhecer, novamente diante da porta de sua casa.A trama começa quando Max recebe a notícia de que foi dispensado do jornal para o qual escrevia crônicas, sua única e parca fonte de renda. O primeiro lugar aonde vai é um sebo, onde tenta vender alguns livros. A peça é composta por 15 cenas nas quais o poeta e seu "infiel" escudeiro d. Latino (Ricardo Blat), uma espécie de Sancho Pança do mal, percorrem lugares como um café elegante, uma taberna, delegacia e redação de jornal, entre outros.Como pano de fundo, as ruas violentas da Espanha pré-guerra civil. "Nesse pano de fundo tem mãe que chora filho morto por bala perdida e polícia que deixa o preso fugir para depois matá-lo na fuga", conta Aderbal. Ainda nesse périplo, ambos se encontram com os mais variados tipos humanos, desde personagens reais, como o poeta modernista Rubén Dario, até personagens inteiramente fictícios."Esperpento" - "Max Estrella é inspirado na figura de um poeta boêmio, Alejandro Sawa, que viveu em Madri e morreu cego e louco." Blat define d. Latino como um sujeito tão pobre quanto o poeta, porém sem talento. "Ele só tem talento para ser safado", brinca. "Mas é o único que reconhece o talento do poeta e isso é bonito no texto, ainda que o personagem tente tirar proveito disso." Em Luzes da Boemia, Valle-Inclán define pela primeira vez o "esperpento", estilo que marcaria suas peças. Segundo ele, a tragédia espanhola era tão profunda que o espelho clássico não conseguiria refleti-la, só um espelho côncavo, deformador. Essa idéia inspira a criação de seus personagens, gente que tem o corpo e, principalmente, o caráter deformados pela miséria exterior e interior em que vivem. Um retrato cruel de degradação de valores na Espanha no início do século."Luzes da Boemia tem uma estrutura dramática incomum para a época em que foi criada", observa Freire-Filho. "São 15 cenas e cada uma delas forma uma unidade perfeita; não são organizadas segundo relações de causa e efeito, mas por situações, o que de certa forma antecipa a estrutura consagrada por Brecht mais tarde, em peças como Galileu e Selva das Cidades", observa. "E ele ainda trabalha com um olhar deformador, um elemento que marcaria o século 20, quando Beckett e Ionesco começam a trabalhar sobre a idéia de absurdo nas relações sociais."Para o espectador, interessa mesmo a tradução disso tudo em cena. E o público parece ter aprovado, mais uma vez, a poética já característica das encenações de Freire-Filho, centrada na essência da linguagem teatral: a cumplicidade entre ator e espectador. Um bom exemplo dessa "poética" está numa das cenas de O Carteiro e o Poeta - entre as raras criações do diretor apresentada também em São Paulo.Numa das cenas desse espetáculo, a dona de uma pensão recebe um telefonema do poeta Pablo Neruda convidando-a para ir até sua casa. Sem sair do lugar, ela troca o aparelho telefônico por um guarda-chuva. Movimentos rápidos - de abrir e fechar o guarda-chuva - e uma mudança de atitude bastam para indicar o trajeto até a casa do poeta. Ao fechá-lo, ela estava na casa do poeta.Em Luzes da Boêmia, todos os cenários são recriados apenas com a movimentação de 12 mesas e 12 cadeiras no palco, realizada por 12 atores. Com agilidade, o elenco desenha com esses elementos cenários tão diferentes como a casa de um ministro, a redação de um jornal e um cemitério. "O público até se assusta de tão imediata a mudança; é quase mágico", comenta Freire-Filho.E ele ainda leva para a cena, na voz dos atores, as rubricas do autor (indicações sobre o estado de espírito ou gestos dos personagens), um belo efeito poético e de distanciamento que já havia conquistado o público em outra encenação - de grande sucesso - do diretor: A Mulher Carioca aos 22 Anos, uma entre muitas criações que não chegaram a ser exibidas em São Paulo. É torcer para que o mesmo não ocorra com Luzes da Boemia.

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