Frei Betto ajuda a trazer Jesus ao século 21

Como será que Jesus Cristo se sentiria se acordasse na cruz em pleno século 21? Com essa questão em mente a Companhia Zagreu capitaneada pelo diretor Ivan Feijó, procurou o teólogo, jornalista e escritor Frei Betto, para que juntos desenvolvessem um texto teatral. Para tanto começaram, em janeiro, uma pesquisa que vai desde os textos bíblicos até autores que discutem as questões sociais contemporâneas. "Tínhamos o intuito de discutir a maneira deturpada pela qual a simbologia cristã chegou até nossos dias", conta Feijó. "Havia muitas idéias, mas precisávamos de alguém que dominasse a escrita e nos guiasse em nossas leituras", conta. A partir da pesquisa, surgiu Apócrifos, que tem estréia prevista para março do ano que vem. A peça é escrita a muitas mãos, com Frei Betto alinhavando as cenas que vão sendo criadas a partir de idéias e improvisações dos atores. "Essa é uma forma muito boa de se trabalhar, pois nos apropriamos mais facilmente de um texto criado por nós", conta a atriz Ana Kutner, que faz a Maria Madalena na peça. "Por outro lado é mais complexo pois temos uma relação muito mais intensa com o personagem", observa. Não é só para os atores que o processo se constitui em um desafio. Para Frei Betto também. Apesar de já ter escrito 44 livros, sendo oito romances, essa é sua primeira incursão no terreno da dramaturgia. "Quando o grupo Zagreu veio me procurar, eu achei que ficaria apenas como um consultor do trabalho deles. Não imaginei que estava caindo em uma armadilha", brinca o Frei. "Fiquei tão ansioso que escrevi uma peça inteira de um fôlego só. Com o tempo, fomos lapidando as idéias e estamos reescrevendo o texto conjuntamente." Apesar de não ter uma peça na vasta obra, o Frei não é exatamente um neófito nesse terreno. Há exatos 33 anos, ele estreava no teatro, como assistente do diretor José Celso Martinez Corrêa em uma das peças mais importantes já encenadas no País, O Rei da Vela. "A experiência foi tão intensa para mim que pensei seriamente em seguir carreira como diretor teatral", revela o Frei. "Mas percebi que, para isso, teria de abandonar a vida religiosa, pois a direção é incompatível com qualquer outra atividade. Optei pela Igreja, mas jamais deixei de me interessar pelo teatro." Por conta dessa paixão, sempre que pôde, desenvolveu atividades teatrais. Quando esteve preso durante a ditadura militar, de 1969 a 1973, encenou peças com os presos comuns que tinham como base os textos bíblicos e a experiência de vida de cada um. "Eles adoravam fazer as peças e nós as apresentávamos para o público normal, com sucesso", conta. Mais tarde, quando morou em uma favela em Vitória, Frei Betto fazia peças de Natal com as crianças no Centro Comunitário. "Eram textos muito singelos, espécie de autos de Natal, que tinham uma mensagem de esperança e fé", conta. Além disso, ele foi crítico teatral, membro da Associação Paulista de Críticos de Artes. O texto que desenvolve hoje não foge à temática com que sempre trabalhou: o universo religioso, mas a mensagem é outra, como deixa claro o próprio título. Apócrifos significa obra sem autenticidade ou cuja autenticidade não está provada. "Queremos trabalhar com a falta de valores que vivemos hoje e entender como um deus de amor, como era Jesus se transformou no deus da dor", conta o diretor. A perplexidade pela deturpação dos valores propagados por Jesus é colocada na peça a partir das reflexões do próprio filho de Deus. "É ele mesmo quem se depara com um mundo que usa seu nome e suas crenças para a conquista de poder e dinheiro, algo em que nunca acreditou", conta Feijó. "E o ritmo dos nosso dias é tão intenso, sobra tão pouco para a reflexão e para olhar o outro que Jesus passa boa parte da peça com fome, sem que ninguém se digne a lhe oferecer um pão sequer." Os temas trabalhados a partir dessa idéia são a crítica ao modelo econômico vigente, fome, exclusão social, crítica à globalização, etc... Mas não pretendem enveredar pelo teatro de tese. "Trabalharemos nessa peça com todos os tipos de linguagem teatral. Assim, o primeiro ato é cômico; o segundo, trágico; e o terceiro faz a síntese dos dois", conta Frei Betto. As respostas às questões retratadas não são dadas no palco. "Enfocamos a perplexidade que sentimos por viver em um mundo tão injusto, mas não temos a pretensão de mostrar respostas, só queremos refletir sobre isso junto com o espectador", diz o ator Milhem Cortaz, o Jesus da peça. Essa angústia é comum aos seis membros da Companhia que têm em comum também a vontade de trabalhar com autores contemporâneos, fugindo do viés realista. "Temos uma pesquisa estética comum e uma grande vontade de refletir sobre nosso país e nosso momento histórico", completa Cortaz. O principal problema enfrentado pelos grupos nacionais de pesquisa teatral, de espaço físico, não existe para a Companhia Zagreu. Ela usa o mais novo espaço de teatro da cidade, o Carmina Domus , do qual Ivan Feijó é diretor. Esse é um centro de formação de atores profissionais localizado na escola Pueri Domus. "Queremos preparar atores tanto para o teatro, como para a televisão e o mercado publicitário", conta Feijó. "O mais legal desse espaço é que a prática do teatro está perto da formação de nossos alunos." Isso se dá desde a abertura da escola, no ano passado, quando os 300 lugares lotaram com o espetáculo A Boa, de Aimar Labaki, com Ana Kutner e Milhem Cortaz, e direção de Feijó. "O Carmina é um espaço de reciclagem de atores e principalmente de troca entre os profissionais", assegura o diretor. Por conta disso, a peça O Jardim das Cerejeiras, com Tonia Carrero e Renato Borghi - da qual fazem parte também Ana Kutner e Milhem Cortaz - teve parte de seu ensaios realizados na escola. "Queremos ampliar nossas parcerias, pois isso é bom tanto para os alunos como para nosso grupo", diz. Esse intercâmbio entre alunos e profissionais pôde ser verificado no ensaio a que a reportagem do Grupo Estado teve acesso, e ao final do qual alunos esperavam para ter aula com a atriz Isabella Lomez, integrante da companhia. Dando prosseguimento a sua pesquisa estética, Feijó já tem marcada, para depois da estréia de Apócrifos, a direção de Senhora dos Afogados, de Nélson Rodrigues com Paschoal da Conceição e Flávia Pucci no elenco. Ela é também professora do Carmina. A maioria dos professores da escola passou pelo Centro de Preparação Teatral (CPT), de Antunes Filho. "Depois dos cinco anos que passei no CPT, nunca mais consegui parar de estudar e me reciclar", conta Feijó. "O Carmina Domus e a peça Apócrifos são resultado dessa vontade de pensar a nossa história para, através da arte, poder modificar um pouco a situação social", acredita o diretor. Para alcançar seu intuito, ele não poderia estar em melhor companhia. "O trabalho social é o que dá mais prazer e alimento para a alma humana. A arte não deve estar longe disso", conclui Frei Betto.

Agencia Estado,

13 de dezembro de 2000 | 13h29

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