Freeman e Pilc mostram técnica e carisma no Chivas

Terminou em clima de mambo a segunda noite do Chivas Jazz Festival. Chico Freeman e a banda Guataca conseguiram o mais difícil. Libertaram a platéia das insuportáveis cadeiras do DirecTV Music Hall e puseram muita gente para dançar. É bem verdade que o público só se arriscou a entrar no clima caribenho da música de Chico Freeman no fim do show. Todos gostaram tanto que pediram bis improvisando o refrão de uma das últimas músicas. Antes, numa apresentação de mais de uma hora de latin jazz recheado de percussão, a integração ficou por conta do pianista Hilton Ruiz, um autêntico animador de platéias. Curiosamente, Freeman conquistou os ouvintes quando latinizou de vez o show, já perto do final. Enquanto fez o jazz percussivo que é a alma de sua banda, teve ótima resposta do público apenas nos solos de bateria, percussão e sax, tocado pelo próprio Freeman. O show de Freeman e a Guataca é forte candidato a ser o mais suingado e divertido de todo o festival. Seu palco é cheio. De um lado, bateria e percussão, integradas a ponto de parecerem um só. De outro, baixo, piano e - enorme diferença - um violão. No miolo do palco fica Chico Freeman, que alterna o saxofone com uma miscelânea de percussões de pequeno porte, como chocalhos e agogô. Freeman e Guataca marcaram ainda outra diferença. Eles cantam. O violonista, Hernan Romero, chegou a apresentar uma composição sua, inteiramente cantada, que poderia entrar na programação de qualquer FM mediana. É claro que tanta diferença afastou o clima tradicional do jazz, mas é inegável que aproximou muito a platéia, que saiu do DirecTV com um sorriso de orelha a orelha. Abertura - O pianista francês Jean-Michel Pilc mostrou por que recebe elogios rasgados da crítica americana. Seu piano é seguro, minucioso e perfeitamente preciso. Um sinal claro de domínio da técnica. Ele se destaca, porém, como leitor da música de outros compositores. Tocou Corcovado e Wave e foi capaz de universalizar as duas músicas, historicamente tão carregadas com a marca Ipanema/Leblon. Antes, disse que no Rio de Janeiro, anteontem, todos pareciam ter gostado de suas adaptações de "um dos maiores músicos do século 20, grande pianista e compositor, o Mozart moderno, Antônio Carlos Jobim". Foi aplaudido por todo o público, mas metade exultou. Pilc tocou também Solitude, uma das mais famosas músicas de Duke Ellington. Manteve a qualidade e foi muito bem sucedido. Seu show teve uma grata surpresa: o baterista Ari Hoening. Ele usa a bateria básica do jazz, com três instrumentos além do bumbo, dois pratos e o contra-tempo. Dessa escassez, tira solos inacreditáveis. Ele, mais do que Pilc, deu provas de que muito ainda pode ser feito no jazz com os standards tradicionais.

Agencia Estado,

24 de maio de 2002 | 06h49

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