Fred Hersh faz sua 1ª gravação depois do ''trauma''

São raros os seres humanos que conseguem superar a experiência radical de um coma profundo por dois meses e emergir para a consciência após permanecerem entre a vida e a morte por tanto tempo. Quando isso acontece, o retorno marca uma espécie de súmula da vida passada e a vontade inaudita de "entender o que é a vida".

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

Essas são as palavras que o notável pianista de jazz norte-americano Fred Hersch encontrou para definir seu atual estado de espírito. Ele tem aids desde 1985 e, em 2008, após gravar o CD Fred Hersch Toca Jobim, agora lançado no Brasil, passou pela terrível experiência.

Teve de reaprender a viver, readquirir o movimento das mãos - reaprendeu a tocar, enfim. Whirl, sua primeira gravação após o trauma de 2008, é uma dupla vitória. Pessoal, com certeza; mas, sobretudo, artística.

Ele permanece de posse de seu admirável e refinado toque. Mas está mais calmo: tece sem pressa, saboreando cada nota e cada acorde, os delicados contornos de seu universo estético, e encontra parceiros ideais porque sóbrios em John Hebert no contrabaixo e Eric McPherson na bateria. São dez as faixas do CD lançado há poucos meses no mercado internacional pela Palmetto Records. Todas ricas de significados emocionais e musicais propriamente ditos.

De um lado, é um beija-mão de seus ídolos carregadíssimo de emoção. Como o tributo a seu professor no New England Conservatory de Boston, o injustamente pouco conhecido pianista Jaki Byard, excepcional virtuose na melhor linha monkiana. Intitula-se Mrs. Parker of K.C. e é, por sua vez, também um tributo, só que à mãe de Charlie "Bird" Parker, um dos gênios do jazz moderno.

Em extensa entrevista de quatro páginas na edição de dezembro/2010 da revista DownBeat, Hersch diz que "minha música é quase sempre programática", isto é, nasce a partir de motivos extramusicais. Como Whirl, imaginada a partir da elegância da dança de Suzanne Farrell, retratada na faixa-título. Não custa lembrar que "whirl" significa turbilhão, redemoinho, rodopio. O impulso que o leva a criar tanto pode vir de seus heróis artísticos quanto emocionais. You"re My Everything, o clássico de Harry Warren de 1949, serve de mote para declarar seu amor ao companheiro Scott Morgan. A belíssima Snow is Falling foi provocada pela contemplação da neve caindo pela janela "em nosso refúgio na floresta da Pensilvânia". Nem por isso deixa de evocar a perda do ser amado numa esquecida canção de 1931 que foi sucesso no trompete e na voz de Louis Armstrong. Esquecida, mas maravilhosa: When Your Love Has Gone.

A independência das mãos, com destaque para uma espécie de alforria da mão esquerda (algo que, aliás, passou para um de seus alunos mais famosos, Brad Mehldau), é característica que permeia toda a gravação.

Como na buliçosa Skipping, em que uma exploração de ritmos e sobreposições harmônicas se inicia com bebopianas oitavas na exposição do tema. A derradeira faixa do disco é um manifesto pessoal e artístico que avisa: Still Here. Estou aqui, sussurra Fred Hersch com sua sutileza habitual: tonalidade menor, balada tranquila, com direito a momentos de calmas evoluções de seu piano inconfundível.

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