Frateschi é o "homem de teatro" da Prefeitura

O secretário Municipal da Cultura MarcoAurélio Garcia anunciou na sexta-feira a nomeação de Celso Frateschi para o cargo de diretor do Departamento de Teatros daPrefeitura. O cargo estava sendo exercido pela jornalista LúciaCamargo, que também acumulava a função de diretora do TeatroMunicipal. Agora, com a reforma administrativa que oficializa ocargo de diretor do teatro, Lúcia passa a dedicar-seexclusivamente a ele. Renomado diretor e ator, Frateschi assume a direção-geral dossete teatros de bairro da capital (Alfredo Mesquita, ArthurAzevedo, Cacilda Becker, Flávio Império, João Caetano, MartinsPenna e Paulo Eiró), além dos espaços existentes em bibliotecase centros culturais espalhados pela cidade. Com a instituição legal de uma direção própria no Municipal ea reforma administrativa do teatro, Frateschi não o dirigirá."A separação já existia na prática, pois o Municipal tem corposestáveis importantes - que precisam ser reformulados - e quemerecem uma concentração maior de esforços que a Lúcia agoraterá mais tranqüilidade para promover", explica Garcia. Apesarda separação administrativa, o secretário ressalta que acomunicação entre Lúcia e Frateschi será decisiva no processo dereestruturação do teatro. Segundo Frateschi, o que o fez aceitar o convite, apesar dasdificuldades que deve encontrar ao longo de sua gestão, é aperspectiva de mudança. "Nos últimos oito anos, São Paulovivenciou a capitulação da política pública perante a hegemoniade mercado em todas as áreas de administração, especialmente naárea cultural, que sofreu um anestesiamento: o poder públicoabriu mão do dever de garantir o direito de todo cidadão àcultura, o que é algo simplesmente criminoso." A intenção, diz ele, é resgatar esse direito. "Como cidadão,não tive como negar este convite e acho que é essencial que sepense a propriedade pública de modo totalmente diferente: a artepode fazer os paulistanos entenderem o próprio papel quedesempenham como cidadãos." Frateschi afirma que não tem a intenção de trabalhar apenascomo um "síndico" dos teatros da cidade. "Oficialmente, osteatros encontram-se em bom estado, mas, se olharmos de perto, acoisa é um pouco diferente e vamos, aos poucos, tentar sanarproblemas de ordem técnica espalhados pelos palcos da cidade;ainda assim, não podemos resumir nossa ação à manutenção dosteatros." Frateschi está se referindo à redescoberta da vocação dessesespaços e, entre outros problemas, à política de eventospromovida pela antiga gestão. "Os teatros não podem ser motéisde alta rotatividade, com eventos sobrepondo-se a outros: nossapreocupação não será simplesmente quantitativa", diz. "Devehaver uma mudança na forma de ocupação dos espaços públicos." "Por exemplo, os auditórios de biblioteca e centrosculturais eram cedidos pela prefeitura para eventos de bairro,como a cerimônia de formatura da escola de culinária local,enfim, apenas o que garante votos. As pessoas precisam entenderque não há apenas uma maneira de agir, que utilizar o espaçopúblico para esse tipo de evento é questionável do ponto devista cultural." O diretor reafirma a importância da ação do poder público naprogramação cultural da cidade. "Hoje, há uma idéia de que apolítica cultural está ligada apenas à iniciativa privada, o quenão é verdade. Quando o empresário patrocina um evento por meiodas leis de incentivos, como a Lei Rouanet e a Lei Mendonça -baseadas nas quais eles descontam o valor investido do Impostode Renda -, em última análise, esse dinheiro é público e,portanto, a preocupação deveria ser com o público." O que, segundo ele, não ocorre. "Os empresários, muitasvezes, investem em uma peça e, assim que seu retorno demarketing está garantido, cortam o investimento e partem paraoutra iniciativa, o que impede a continuidade e oaperfeiçoamento da montagem, que poderia seguir em temporada emoutros teatros da cidade." No Municipal, essa situação também pode ser verificada. Écomum, por exemplo, dentro da temporada da Associação Patronosdo Teatro Municipal, serem promovidas noites para o patrocinador nas quais grande parte dos ingressos são entregues a título decortesia para as empresas que se utilizam das leis de incentivopara fazer seus investimentos. "Já conversamos com os patronose deixamos claro que, daqui para frente, as premissas sãooutras", ressalta Lúcia Camargo. E completa: "Se você nãoocupa o espaço, alguém vai e ocupa. A partir de agora, todas asescolhas serão feitas em comum." Nesse sentido, Garcia defende a revisão da Lei Mendonça. "Há pelo menos três gavetas em minha sala de distorções da lei queprecisam ser impedidas e analisadas de forma que possa serassegurado o seu caráter público. A lei que ajudou tanto quandoa secretaria não tinha política cultural não pode acobertarpicaretagens."Problemas e projetos - Outro problema a ser enfrentado pelanova gestão é o orçamento, ainda não definido. Segundo osecretário, quando se reúnem todas as dívidas e compromissosherdados de outras gestões, o orçamento da secretariatransforma-se, na verdade, em uma "peça de ficção". "Ficadifícil montar um programa de ação quando se é obrigado a saldardívidas contraídas quase dez anos atrás." A formação de público aparece como uma das principais metasde Frateschi. "É papel do governo fomentar a criação de umpúblico para o teatro e esse projeto, aliado a outros quepretendemos instituir, a longo prazo, acabariam se integrando ecompondo um panorama bastante diferente do que caracteriza aprodução teatral nos dias de hoje." Para tanto, já estão sendo estudadas parcerias com aSecretaria de Educação e um dos projetos que devem serconcretizados é o do teatro vocacional, que vai dar chance apessoas de todas as classes sociais de desenvolver seu potencialartístico. Nesse processo, Garcia acredita que os contatos e aexperiência de Frateschi como homem de teatro serão decisivos. Odiretor ressalta, porém, que todos os contatos que tem sãoinformais e devem transformar-se. "O mundo teatral é uma grandetribo e as relações informais são muitas, mas, agora, elasprecisam ser formalizadas, normalizadas, de maneira bastante cristalina."

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