Frases ocupam o branco da página

João Gilberto Noll detalha sua forma de criação em texto que vai ler na Universidade de Madison, como autor residente

João Gilberto Noll,

03 de outubro de 2010 | 00h09

Meu primeiro encantamento artístico deu-se com a música. E não com a palavra. Talvez tenha vindo daí o fato de eu me considerar um escritor de linguagem e não propriamente de tramas e assuntos. O que me leva ao enredo de uma novela é a senda que a linguagem vai abrindo no decorrer do ato da escrita. Assim, a escrita se constitui no atrito com o instante. Na luta às vezes árdua para povoar o vazio.

Geralmente os inícios de minhas escritas são meros aquecimentos, um tatear no escuro. Quando chego ao término volto à introdução para removê-la dali e refazê-la de uma forma mais congruente com o restante da narrativa. O início deixa de ser exercício à procura de uma atmosfera mais ou menos relutante, para se tornar efetivamente a abertura da trama.

Vejo nesse "método" a linguagem como condutora para os dramas humanos que vão se revelando pouco a pouco ao longo de minha ficção. Uma música a princípio disparatada que a partir de um determinado ponto começa a encarnar de fato o tema. Tudo porque o que move a escrita em mim é o inconsciente, e não tanto o domínio que eu eventualmente possa ter sobre uma matéria ficcional. Quando começo a escrever um romance não sei exatamente aonde ele vai dar.

Ao iniciar o meu contato mais íntimo com a leitura da palavra artística, a minha atenção correu mais solta sobre a poesia do que a prosa. Justamente pelo fato de que o poema, e também a música que não seja eminentemente descritiva em sua própria constituição instrumental, possuem uma referencialidade mais aberta relativa às coisas, não se reportam tão diretamente ao mundo, mas à sua própria formulação - essa, sim, estruturante de um eventual objeto de narrativa, força motriz que é de um processo gradativo de significação.

Pintores. Eu perguntaria: essa tendência pulsional diante da criação não seria inerente antes de tudo à música e à poesia, campos de ação onde a linguagem via de regra predomina sobre a reportagem de conteúdos imediatamente reconhecíveis? Aqui não poderíamos deixar de pensar também na compulsividade do ato criativo de certos pintores expressionistas abstratos, que projetavam na tela impulsos cegos das mãos, deixando para um segundo momento a "compreensão" estilística do seu produto em progresso ou já concluído.

Sou eu mesmo um romancista e contista, cujo trabalho, no entanto, é carreado para o vazio do branco através de veios submersos, mais acostumados com o leito da linguagem do que dos fatos. Os fatos, tanto os crus como os estimulados por nada mais que um sopro rítmico, os fatos aparecerão, sem dúvida, pois que sou um ficcionista. Mas, em meu exercício, a força do narrado não vem tanto da mensagem dos assuntos em si mesmos quanto da voz que narra, às vezes, em um único livro - ora em primeira, ora em terceira pessoa. É como se eu padecesse um pouco com a obrigatoriedade da canga do relato e assim devesse aspirar a uma narrativa de apenas um "ai!" coagulado em verso. Mas como um cinéfilo que sou, há sempre a confiança nas imagens em movimento, em que pese, no meu caso, feitas de palavras.

Esfinge. O desdobramento de uma cena em outras se constitui num ofício vertiginoso, penso que ainda mais vertiginoso por se tratar aqui de um horizonte a renascer a cada manhã, na minha mesa de trabalho - com um panorama, até o final da escrita, sempre em forma de esfinge, incalculável quanto ao sentido de sua abrangência que tarda em se dar até sua duração expirar.

Por que deixo todo o meu controle para um segundo momento da criação, quando trabalho o aspecto artesanal da história, quando preparo racionalmente o texto? Sim, pois na primeira etapa, não penso muito sobre a frase a ser projetada no vazio do branco. Ela se faz fundamentalmente numa espécie de produção tortuosa do instante, e sem essa aquecida oficina dos minutos, pouco ou quase nada será dito, nem ao menos anunciado. Salvo uma ideia ou outra que posso ter andando na rua ou dentro de um táxi. Situações cada vez mais raras, pois é ao sentar diante da tela do computador que a pronúncia ficcional se estabelece.

De onde vem a trama? Diria que do substrato de algumas infraexperiências difusas ou abertamente figurativas que só ali, no entanto, diante do branco a preencher, ganham força para se lançarem de sua insuficiência para a encarnação insuspeitada da escrita. É bom lembrar que a literatura não pode ser vista tão-só como uma recuperação da memória, já que sua jornada se concentra em uma intensidade cujo frescor traz certa marca inaugural.

Quando pousamos os olhos num relato ficcional de respiração poética sentimos a força do estranhamento. Nesse tom não é a vida bruta que captamos, mas uma linguagem transfigurada, a insinuar que o que perdemos da transparência do mundo se trata justamente do ganho maior da leitura. Por quê? Porque nessa linha de leitura aderimos aos pontos que costumamos evitar na vida regradamente social, unívoca - um espaço alheio à linguagem extraída das lacunas do inconsciente, esse território geralmente inútil aos ouvidos do cotidiano.

Que ficções seriam essas? Obras de antiação, feitas numa prosa de lampejos poemáticos, congelados, sem parentesco com o que vem antes ou depois de cada cena? Pode haver nelas, sim, eixos narrativos diluidores da relação de causalidade - aliás, como na própria vida onde o acaso joga um papel amiúde decisivo, instaurando algumas vezes uma dramaturgia laica, independente de qualquer criação estética. Mesmo assim não poderíamos chamá-los de romances ou contos de antiação. Pois não são necessariamente narrativas de estados d"alma, instantes psicologizantes, alheios às sequencialidades tão comumente insensatas da vida. Não, o nervo dessas ficções pode estar justamente nesse continuum alienante. Nesse tropel de acidentes que costumam nos levar para fora das reais necessidades humanas.

Estranhamento. Por isso o sentimento de estranhamento diante dessas ações quase demenciais. A materialidade do próprio texto, seu som, sintaxe, ritmo, suas dissonâncias ou pacificidades, reflete a atmosfera existencial dos personagens. O universo mental do protagonista é somatizado no estilo. São essas configurações que não raro vestimos na louca administração de nosso cotidiano. A disparada de eventos não essenciais é que entorpece nossa atenção. Preparando-nos, quem sabe, para observá-los com genuína perplexidade face à transfiguração estilística de alguns romances e contos. Nesse caso, o livro que temos nas mãos pode conter a pulsão libertária que só a memória perdida soube tecer.

QUEM É

JOÃO GILBERTO NOLL

ESCRITOR

Nascido em Porto Alegre, em 1946, é um escritor que se interessa pelos mistérios da alma. Criador de imagens que transcendem a narrativa, é autor de obras como O Cego e a Dançarina (1980), Harmada (1993), A Céu Aberto (1996) e Mínimos Múltiplos Comuns (2003), entre outros. Atualmente, é artista residente na Unicamp.

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