Franz Weissmann expõe sua usina 24 horas

O escultor Franz Weissmann tem a vitalidade dos muitos adolescentes que seus 90 anos (idade que completa em 2001) comportam. Ele abre hoje uma exposição, na Casa França Brasil, com 14 peças inéditas, mas queria produzir muito mais, pois tem várias maquetes em casa, esperando oportunidade para serem executadas. "Isso acontece porque ele não pára. Trabalha 24 horas por dia, embora sem uma rotina definida", diz a filha dele, Waltraud Weissmann, a Wal. "Devido ao tamanho, ao peso e ao preço de execução, foi preciso restringir a mostra às 14 peças inéditas e a quatro já vistas."Estas últimas foram incluídas por sugestão do secretário estadual de Cultura, Adriano de Aquino, mentor da exposição, que será vista por crianças de escolas públicas que têm como currículo extraclasse visitas periódicas à Casa França Brasil. O curador Paulo Venâncio escolheu a Coluna em Três Lâminas e três obras com o mesmo nome, Cubo 2, mas feitas em períodos diferentes, os anos 50, 80 e 90. "Assim, será possível fazer uma comparação das várias fases de seu trabalho", comenta o genro de Weissmann, Fernando Ortega, que é arquiteto e faz o projeto de execução de suas esculturas. "Recebo a maquete em papelão ou madeira e faço o projeto que é executado por uma oficina especializada."Devido a seu processo de trabalho e à grandiosidade de suas obras, Weissmann não gosta de chamá-las de esculturas, embora não lhes dê qualquer outro nome. "Não trabalho com formas maciças e sim com linhas no espaço. Minhas peças não têm volume, são formas que ocupam o espaço", teoriza ele, que também não quer ser chamado de artista. Talvez herança de uma juventude em que a palavra definia uma pessoa pouco afeita ao trabalho. Franz chegou ao Brasil aos 11 anos, vindo da Áustria, onde seu pai era funcionário de uma ferrovia e militante socialista. "Fomos morar em Santos e meu irmão abriu uma fábrica. Ele brigava comigo porque, em vez de trabalhar, eu ia para a praia onde pintava o dia inteiro."Embora o sucesso tenha demorado - só aconteceu nos anos 40, quando ele se casou e foi para Belo Horizonte, onde trabalhou com Guignard -, Franz sempre teve consciência de seu valor como artista. Talvez por isso, tenha feito poucas concessões. A fábrica do irmão virou a Ciferal, grande indústria de carrocerias, já fechada, e usar suas oficinas facilitou a fabricação das peças, sempre monumentais, em aço (comum ou inoxidável), alumínio e outros metais. Estas obras estão espalhadas pelo Rio (no Centro Cândido Mendes e na Casa de Cultura Laura Alvim, na Praia de Ipanema), São Paulo (na Praça da Sé) e outras capitais brasileiras. "Geralmente, quando me encomendam uma obra, vou ao local, fico um tempo lá para ver o que funciona melhor", diz Weissmann. "Às vezes, já tenho alguma coisa condizente e é só executar."Não foi sempre assim. Por causa do material que utiliza e da monumentalidade, suas peças são necessariamente caras. Para essa exposição, por exemplo, foi possível diminuir as despesas, graças ao trabalho do genro e à boa vontade da fábrica de estruturas metálicas Novotec, de São Paulo. Mesmo assim, o custo do quilo de aço ficou em R$ 12,00. Só que as 18 esculturas pesam juntas, 9 toneladas, ou seja o preço de custo total é R$ 108 mil. "Por isso, ele criou múltiplos com 20 ou 40 cópias para permitir à classe média adquirir sua obra e ele, assim, sustentar a família", lembra Ortega."As prefeituras e órgãos públicos já compraram esculturas, pararam, e, com esta exposição, podem se sentir estimuladas a voltar a adquirí-las. Daqui, queremos levá-la a São Paulo, Brasília e outras cidades. Não é uma exposição só para ser vista, as pessoas poderão tocar e até entrar dentro das peças."Se não é fácil viver de seu ofício, Weissmann se sente realizado por ter formado uma geração de artistas, como professor e como exemplo de uma obra que se integrou à paisagem das cidades brasileiras. "Sou pai de muita gente", garante ele. Mas poucos conseguem seguir seu método de trabalho, pois sua intuição o leva a errar muito pouco nos projetos e ter um nível de exigência que obriga ao projetista de suas obras a fazer cálculos ultraprecisos, detalhados milimetricamente. No entanto, ele nega que seja um artista cerebral. "Minhas peças nascem de uma necessidade interior. Sigo minha intuição e vou verificando e corrigindo as imperfeições. Primeiro nasce a obra, a teoria vem depois."Muitas vezes, esse processo leva anos, até décadas, porque Weissmann não joga fora nenhuma de suas maquetes. Se abandona um projeto hoje, por insatisfação com o resultado ou por não encontrar uma resolução adequada, pode retomá-lo amanhã ou daqui a 20 anos, ao olhá-lo por um ângulo novo. Aí está a receita de tanta vitalidade. "Eu sei que tem muita gente da minha idade que fica em casa arrastando chinelo e preparando o ataúde", brinca ele. "Eu não, estou aí e, se der, estarei nas festas que já estão programando para meu centenário."

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