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Franti, beat temporão

Astro do SWU, cantor examina a carreira e parcerias com Burroughs e Charlie Hunter

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2011 | 00h00

Entrevista

Michael Franti

Poeta, cantor, ativista

A caminho do Brasil pela primeira vez para o festival SWU, o poeta, cantor, compositor e ativista Michael Franti é uma estrela norte-americana pouco conhecida aqui neste lado do mundo. Entretanto, tem uma longa folha corrida no pop com tintas de funk, reggae, punk e hip-hop. Gravou com Sly & Robbie e manteve um grupo que incluía o jazzista Charlie Hunter. Ele toca no dia 12 de novembro, em Paulínia (119 km de São Paulo).

Influenciado pela literatura beat, ele começou justamente em São Francisco, berço do movimento, liderando um combo batizado como Beatnigs, "cinco jovens negros tocando nas ruas, com uma abordagem verdadeiramente crua da política".

Nascido em Oakland, Califórnia, filho de mãe branca (de ascendência alemã e irlandesa) e pai negro, ele foi dado para adoção para uma família da cidade porque a mãe temia que ele fosse rejeitado por sua família. Foi criado por Charles Franti (professor de epidemiologia na Faculdade de Medicina de Oakland) e sua mulher, Carole Wisti, e se formou pela University of San Francisco.

Franti falou ao Estado por telefone sobre seu primeiro show no Brasil. Ele vem com a banda Spearhead, que o acompanha desde 1994.

Às vezes você é definido como poeta, noutras como ativista, noutras como músico. Qual prefere?

Sou todas essas coisas em horas diferentes. Sou apenas um ser humano em busca de alguma verdade e do amor. O suporte não importa, o importante é expressar minhas ideias. Um dos meus heróis na arte foi Gil Scott-Heron, que morreu recentemente. Desde que ouvi pela primeira vez Revolution Will not be Televised, eu vi que era aquilo que eu queria, causar aquele tipo de impacto. Suas canções me influenciaram, tanto politicamente quanto na vida pessoal. Nos anos 90, eu tive a sorte de me tornar amigo de Scott-Heron. Era um gênio, mas era junkie também. As drogas levaram sua vida, mas era gentil e brilhante. Seu talento faz com que a gente não se lembre dos seus erros, mas é preciso ressaltá-los porque eles o mataram.

Você também fez um disco com William Burroughs, um dos maiores autores norte-americanos. Como o conheceu?

Fizemos um disco juntos, em 1993, Spare Ass Annie and Other Tales. A primeira vez que o encontrei foi no início dos anos 1990. Eu estava abrindo os shows da turnê Zoo TV, do U2, e um dia Bono me chamou para o camarim dele. Entrei e lá estava Burroughs, sentado. Ele perguntou para mim e para Bono: "Vocês gostariam de conhecer uma preciosidade da minha coleção de armas?" A gente achou que era brincadeira. Ele carregava uma sacola de boliche, e a abriu e tirou uma pistola. Entramos em choque, especialmente quando descobrimos que havia balas nela, estava carregada. Trocamos contatos e um dia ele me ligou para convidar a fazer esse trabalho juntos, misturando poesia e música. Tenho grande orgulho de tê-lo conhecido.

Pode-se dizer que, como um jovem de São Francisco, você foi influenciado pelos beatniks?

Sim, muito. Todos fomos influenciados. O que eles fizeram foi difundir a liberdade total de expressão. Na época, nos Estados Unidos, vigorava a lei do "trabalhe duro, ouça o que diz sua igreja, faça seu caminho desse jeito". Eles vieram e disseram que éramos livres, tínhamos de perseguir a liberdade. E lutaram por uma sociedade aberta, à sua maneira. Forçaram as fronteiras artísticas, forçaram os limites.

Os beats preconizavam que não se podia separar vida e arte, que o artista devia fazer da sua vida parte de sua arte.

De fato, não acho que seja possível separar. Minha vida familiar e minha vida artística se desenvolvem no mesmo ritmo, é tudo junto. Vivemos numa sociedade em que tentam dividir tudo, compartimentar, tornar as coisas sem vida, desprovidas de sentimento e envolvimento. Mas isso é falso, não é assim que acontece.

Você fez um filme, I Know I"m Not Alone, que trata do conflito no Oriente Médio. Foi até o Iraque para fazê-lo, além dos territórios ocupados?

Sim, achei que devia fazer algo. Sempre vemos políticos, soldados, militares, todos falando nos custos financeiros das guerras, nos investimentos, nas perdas econômicas. Ninguém nunca aborda o problema das perdas humanas. Eu procurei ouvir opiniões sobre a guerra das pessoas mais afetadas por ela: médicos, enfermeiras, poetas, artistas, soldados, músicos. É uma visão simples, a partir das pessoas, e não das organizações e instituições.

Essa afasia dos políticos seria a causa desses conflitos civis que se alastram pelo mundo?

Um dos motivos. Vejo com muita tristeza tudo isso, a falta de oportunidades, o horizonte sombrio, o jeito que os negros são tratados. É hora de mudar isso, de dar a chance da prosperidade econômica para todos. O capitalismo predatório está extinguindo milhares de animais e espécies. É evidente que precisamos ir às ruas, é necessário. Mas acho que é preciso achar um jeito de comunicar o que queremos. Muitos acham que o único jeito de chamar a atenção é jogar uma pedra na vidraça, mas não é.

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