Frans Krajcberg e sua paixão pela natureza

Além das belas fotos e das encantadoras esculturas e gravuras que o leitor encontrará nas páginas de Natura e Revolta, os dois livros que serão lançados num estojo único nessa terça à noite permitem acompanhar de perto a fascinante trajetória de Frans Krajcberg. Seria um erro pensar que esse homem, que não se cansa de afirmar que a natureza foi sua salvação, é apenas um ecologista que se serve da arte para sua luta ou um artista que lança mão das matérias-primas da natureza para construir um discurso plástico."Sou um homem inteiramente ligado à natureza. Meu ser, minha vida, minha cultura são a natureza. Dela dependem minha sobrevivência e minha criatividade", escreve ele em Natura. Essa primeira obra, que traz a público o talento de fotógrafo de Krajcberg, dá voz à mata, aos animais, aos rios. Não há nenhuma referência ao local ou espécime retratado, como se a menção de termos científicos ou geográficos acabasse por reduzir o efeito das fotos.A beleza das imagens chega a doer, principalmente quando essa riqueza vai sendo substituída por um registro trágico da destruição. Uma delas mostra um rapaz com uma tocha na mão, prestes a atear fogo no mato, bem diante de um cartaz com os dizeres: "Preserve a natureza, não faça queimadas."Frans Krajcberg se diz um homem revoltado. E encontra razões para isso tanto na sua vida pessoal quando no mundo que o cerca e que observa com olhos de lince e sem falsas condescendências. Se neste primeiro livro temos o olhar, a luta e o desalento desse judeu polonês que descobriu e se deslumbrou com a natureza brasileira em 1948, quando desembarcou por aqui sem um tostão, marcado pela Grande Guerra (seus pais e irmãos foram mortos em campos de concentração, ele viu o horror de perto como voluntário do exército russo), é em Revolta que vemos como arte e engajamento se fundem de forma poética em sua obra.Segundo o crítico Frederico de Morais, autor do texto que acompanha a publicação, Krajberg desenvolve acima de tudo um projeto ético. Projeto esse que teria começado a ganhar corpo na década de 60, quando o artista descobriu Minas Gerais. "As montanhas eram tão belas que eu me pus ao mesmo tempo a dançar e a chorar", conta.Nesta mesma década ele passa a reinventar as raízes. "Com sua energia agressiva e inquieta, elas são vistas como início do ciclo vital, enquanto as flores seriam o princípio da morte", explica Morais, que ao longo do livro vai desvendando de forma apaixonada questões vitais para a obra de Krajcberg. Entre os temas tratados estão a sombra (e por conseqüência a luz); as referências dentro da história da arte; a beleza perturbadora; o naturalismo integral proposto pelo Manifesto do Rio Negro (escrito em 1978 com Pierre Retany e Sepp Baendereck); e a enriquecedora confusão entre o estético, o político e o ecológico.Tudo isso para concluir que, "solidário com as grandes causas que envolvem o destino do homem neste planeta, mas sem oportunismo panfletário e piegas, ele tem sido, desde os anos 50 um precursor ou no mínimo um renovador de algumas das tendências fundamentais da arte desse século". Em suma, Frans Krajcberg é um "artista revolucionário".Preservação - Infelizmente, por não fazer o jogo do mercado - nem marchand Krajcberg tem - sua rica produção é bem mais conhecida na França do que no Brasil, sua terra por adoção. Para tentar superar essa falha, está prestes a ser levantado um museu para abrigar sua obra em Nova Viçosa - local que o artista escolheu há muitos anos para construir sua casa e ateliê. Também está em curso o projeto de transformar o ateliê parisiense do artista em um museu.Amanhã à noite, no Itaú Cultural, o arquiteto Jaime Cupertino - convidado por Krajcberg para projetar seu museu baiano - fará uma palestra explicando as linhas gerais do projeto. Ocupando uma área vizinha à casa-ateliê do artista, o museu deverá ter aproximadamente 1,5 mil metros quadrados, com uma enorme área em torno.Segundo Cupertino, a idéia-mestra desse projeto será uma parede de sete metros de altura por 80 de comprimento, feita de carvão (ou de formas em concreto simulando o material) como "um monumento à floresta que foi destruída". Para integrar o prédio à paisagem, Cupertino pretende utilizar o máximo de vidro possível para uma construção num local quente como a Bahia e que não utilize ar-condicionado.Além de abrigar as centenas de obras que estão instaladas precariamente no local, o prédio também serve como ponto de partida para a realização de um catálogo raisonné da obra do artista, que no próximo ano comemora 80 anos de vida.Revolta e Natura. Os livros Revolta, 170 páginas, e Natura, 92 páginas, sobre Frans Krajcberg serão vendidos em estojo único por R$ 150. Editora GB Arte. Terça-feira, às 19 horas. Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, tel. 238-1700

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