"Frankenstein" ganha tintas das artes, teatro, circo

Os três integrantes da premiada companhia Pia Fraus - Beto Lima, Beto Andretta e Domingos Montagner - têm algo em comum com o personagem central de seu próximo espetáculo, Frankenstein. Nada a ver, claro, com aparência física. Como o cientista Victor Frankenstein criado pela escritora Mary Shelley (1797-1851), os atores da Pia Fraus dão vida a seres inanimados. Criam personagens a partir de bonecos, mesclando as linguagens do teatro, do circo, da dança e das artes plásticas.Manipulação de bonecos, truques com sombras, coreografias, números aéreos, iluminação e sonorização - o Pia Fraus não vai poupar recursos para reproduzir em cena o pesadelo gótico Frankenstein. O espetáculo estréia amanhã no Teatro Augusta, onde faz seis apresentações, até o dia 2, dentro da programação do 4.º Cultura Inglesa Festival, patrocinador da montagem. No dia 16, Frankenstein inicia temporada no Centro Cultural São Paulo.PuniçãoQue ninguém espere um monstro patético com parafuso no pescoço. Frankenstein está longe de ser uma comédia. Andretta, Lima e Montagner foram beber na fonte original para criar o seu texto, adaptado do volumoso romance de Mary Shelley, cujo tom está mais para os livros do mestre do terror Stephen King do que para os filmes do comediante Mel Brooks, entre eles o inesquecível Jovem Frankenstein."Frankenstein virou um mito a um só tempo muito familiar e pouco conhecido", afirma Andretta. Foi misturando teorias científicas e a influência de muita leitura ainda não totalmente digerida que, aos 19 anos, a mulher do poeta Percy Shelley escreveu o romance Frankenstein ou o Moderno Prometeu, em 1816.O mito Prometeu - punido por roubar o fogo para dá-lo aos homens que, segundo Zeus, ainda não estariam preparados para lidar com tão forte elemento da natureza - inspira o início e o fim do romance. Tem origem no mito grego a idéia de uma ambição desmedida como estímulo para a criação do monstro e a punição final do cientista.O pensamento de Rousseau - o homem é por natureza bom, a sociedade corrompe-o - também influenciou a autora. "Frankenstein é monstruoso na aparência, porém uma doce criatura", diz Andretta. "A rejeição do seu criador e da sociedade o tornará cruel.""Sem querer, a escritora antecipou muita coisa, como as pesquisas genéticas, o mundo cibernético contemporâneo, os alimentos transgênicos", comenta Lima. Mas os três decidiram não levar nenhuma dessas analogias - e seriam muitas as possibilidades - ao palco. "Vamos apenas contar essa história, por si só muito forte, e deixaremos que o espectador faça as associações", ressalta Montagner.Simplesmente contar a história, nesse caso, é muita coisa. Afinal, são centenas de páginas reduzidas a uma hora de espetáculo. "Nossa ênfase recaiu sobre as relações humanas", diz Montagner. "Basicamente, vamos contar a história de uma criatura rejeitada, da dor provocada por essa rejeição e das conseqüências para ambos, criador e criatura", admite Andretta.Em sua concepção, os três atores da Pia Fraus dividiram a peça em quatro blocos. Manipulada no estilo bunraku, com os atores vestidos de negro, a boneca Mary Shelley abre o espetáculo. No prefácio do livro, ela conta que, desafiada pelo marido a escrever um conto de terror, acaba tendo um pesadelo horrível, transformado em sua primeira fonte de inspiração."Abrimos o espetáculo com esse pesadelo, uma espécie de síntese do clima de terror da história e também um recurso que nos permite criar, a partir daí, com bastante liberdade." A segunda parte é uma espécie de apresentação das idéias do cientista Victor Frankenstein, seu estilo de vida e sua família. "Essa segunda parte vai até a criação do monstro, feito de restos de corpos roubados em necrotérios", comenta Lima.PânicoNão é difícil imaginar o terror do cientista quando aquele ser disforme, com membros diferentes e desproporcionais, se move e abre os olhos. Conta o livro que, diante da dificuldade de reconstruir pequenos órgãos com restos de tecidos, o doutor Frankenstein optou por aumentar as dimensões de sua criatura. O cientista entra em pânico ao ver aquele ser enorme e monstruoso mover-se em sua direção.A terceira parte da peça mostra o aprendizado da criatura. "Ele nasce sem noção do tempo, sente dores pelas recentes cicatrizes, não sabe falar nem ler, não sabe nada do mundo e de si mesmo", diz Andretta. Rejeitado pelo criador, a criatura foge, é atacada por quem encontra no caminho e, depois de um duro aprendizado, acaba por descobrir sua origem."Ele havia levado um casaco do laboratório e, no bolso, encontra o diário do cientista", informa Lima. A criatura vai então ao encontro do criador. "Depois de contar seu drama, pede que o cientista crie uma companheira para ele", diz Lima. De início, Victor Frankenstein hesita, depois chega a começar o trabalho, mas comete um erro fatal e tudo termina em tragédia. Uma bela e comovente tragédia, promete o Pia Fraus.Frankenstein. Teatro físico. Duração: 70 minutos. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 10. Teatro Augusta. Rua Augusta, 943, em São Paulo, tel. 0-XX-11-3151-4141. Até 2/6.

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