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Frankenstein e D. Sebastião

Em decisão de Getúlio Vargas está uma chave importante da compreensão da política nacional: a cooptação permanente

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

10 de março de 2019 | 02h00

A República no Brasil foi instituída por uma aliança de dois grupos distintos: militares e ativistas republicanos. Formações distintas, origens sociais diversas, visões de mundo totalmente opostas em quase tudo: uniram-se em novembro de 1889 e deram um golpe no Império. Cafeicultores de São Paulo e marechais de Alagoas? Com astúcia e força, atingiram o que desejavam: Pedro II foi derrubado e saiu para o exílio. Mal instalados no poder obtido da aliança heterogênea, os dramas eclodiram. O primeiro marechal, Deodoro, renunciou meses após a eleição. O segundo marechal ficou até o fim, mantendo com mão de ferro o poder, ameaçando antigos aliados de prisão, fazendo muito republicano viver uma pequena “síndrome de Frankenstein”: aquilo que criamos pode nos destruir. 

O fenômeno se repete em 1930. A ascensão de Getúlio Vargas tem uma base ampla e muito variada. Washington Luiz foi derrubado com certa semelhança a outro fluminense como ele: Pedro II. Ambos caíram mais pela falta de apoio do que pelo domínio numérico de adversários ativos. Já no poder, dizem, perguntaram a Getúlio como havia conseguido acalmar o intenso movimento tenentista, aliados semiconfiáveis da ditadura varguista. “Simples”, teria dito o gaúcho de São Borja, “eu os promovi a capitães”. No proverbial maquiavelismo do pai dos pobres, está uma chave importante da compreensão da política nacional: a cooptação permanente. 

O monstro feito de vários corpos ataca novamente. Em 1945, Getúlio é derrubado por antigos aliados como Eurico Gaspar Dutra e Góes Monteiro. Dr. Frankenstein lançou seu sorriso do túmulo. 

Em 1964, o movimento civil-militar que derrubou João Goulart reunia políticos civis como Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Auro de Moura Andrade e outros e lideranças militares como o general Olímpio Mourão Filho. Vitorioso, o movimento sofreu a velha síndrome alvo da crônica diante dos seus olhos. Carlos Lacerda cedo se afastou dos antigos aliados e foi buscar inimigos de outrora contra o Leviatã que ajudara a criar. Não adiantou: teve o mesmo destino e foi cassado. 

Entre as forças armadas vitoriosas em 1964, surgem dissensões também: Marinha e Aeronáutica chegam a atritos significativos no período. Dentro do Exército há um choque profundo entre linhas-duras e sorbonistas, depois entre general Sílvio Frota e Ernesto Geisel. Frankenstein acena de novo: as costuras unidas tendem a descoser com a vitória. 

O fenômeno é monótono por ser repetitivo. Volta a ocorrer na Nova República, em 1985. Mostra seu corpo mostrengo na constituinte. As manifestações de 2013 incluíam quase tudo do espectro político e social. Fórmula histórica: um grupo variado se une contra um inimigo em comum. Tudo conduz à união de forças e discursos no ataque à Bastilha. Decapitado Luís XVI, os grupos mostram fissuras. Executado o czar, os bolcheviques devem matar antigos aliados. Derrubado o Império Britânico, emerge a violência extrema no subcontinente indiano. Como comentou o poeta grego Kaváfis (1863-1933), os bárbaros são fundamentais para a vitória da civilização (poema À Espera dos Bárbaros). O que fazer depois que o inimigo caiu? Onde fazer a reunião da vitória? Como distribuir o poder se as concepções de política são inteiramente distintas na aliança que alcançou o prêmio?

Sempre é uma resposta complexa. Conservadores se uniram contra a esquerda e seu símbolo máximo, o PT. O partido que uniu a direita perdeu nas urnas e nos tribunais, teve seus líderes presos ou indiciados e houve uma queda notável no prestígio e no poder de controle do eleitorado. Chegou a hora de a ampla e variada aliança conservadora tomar o poder.

No amplo recorte que chegou ao Planalto pelas urnas, temos conservadores clássicos, extrema direita, religiosos de várias confissões, liberais, estatistas, militares, empresários, classe média, alguns intelectuais, escassos artistas, desconfiados do Estado por vários motivos, querendo intervenção do Estado por outros motivos, e outros que, apenas, odeiam o PT. Como é comum, as fendas surgiram rapidamente e fogo amigo está provocando baixas nas fileiras aliadas. 

Frankenstein sorri. Seu corpo foi animado pela eletricidade. Vivo, sem alma e com grande força, seu criador vira seu inimigo. Não é uma novidade, mas sempre inquieta.

A lama de Brumadinho se soma à lama de Mariana na tragédia que ignora coloração política. Queimou o Museu Nacional e também o fogo atingiu o Flamengo. Quem nos salvará? Quem nos unirá? Um dia retornará D. Sebastião. O quinto Império vai ser restaurado. Viveremos uma era de paz e de abundância. Até a volta do Desejado, o império de Frankenstein será nossa realidade. Sempre foram corpos unidos de consciências distintas. A costura é frágil. Bom domingo para todos nós. 

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