Todd Heisler/The New York Times
Todd Heisler/The New York Times

Frank Miller leva fãs brasileiros às lágrimas e quer escrever história que tenha Batman como vilão

Quadrinista recebe tributo em sua homenagem durante a tarde de sexta-feira, 4, na Comic Con Experience, em São Paulo 

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2015 | 19h06

Existe algo de sobrenatural na presença de Frank Miller, definitivamente. O criador de histórias icônicas com heróis como Demolidor e, claro, Batman, fez os fãs brasileiros chorarem diante da emoção de trocar algumas palavras com o mestre dos quadrinhos, durante um painel dedicado a ele, nesta sexta-feira, 4, durante a Comic Con Experience, realizada na São Paulo Expo, na zona sul da cidade.

Não que ele seja de todo simpático. Ou sorria muito. Mas talvez aí também resida um pouco da magia. Ele, concurnda, com a cabeça ligeiramente inclinada para a esquerda, inteiramente de preto, encara o apresentador do painel - e os fãs, quando foi dedicado um tempo para perguntas feitas por pessoas da plateia -, com um olhar bastante perturbador até. Ouve atendamente o que a tradutora está lhe dizendo ao pé do ouvido. Respira um pouco antes de abrir a boca. E é curto nas respostas.

Isso não o impede de ser carinhoso, contudo. Em quase todo o tempo em que respondeu à questões vindas do público, ele se dirigia diretamente às pessoas, agradecia a todos os elogios e tentava, na sua maneira, esboçar leves sorrisos.

A ideia do painel, iniciado às 16h30, era homenagear e pessear pelas páginas escritas e desenhadas por Miller ao longo da carreira. "Minha mãe me disse, uma vez, que eu tinha 5 anos de idade quando eu disse para ela que queria trabalhar com quadrinhos pelo resto da minha vida", contou. "Demorou um pouco para que eu conseguisse isso, mas deu certo."

O papo, de pouco menos de uma hora, iniciou com o primeiro trabalho dele na Marvel, com Homem-Aranha, seguindo pela empreitada hercúlea dele em Demolidor. "Quando pedi para escrever sobre o Demolidor, os executivos riram da minha cara", contou. "Depois que pararam de rir, me deram o trabalho."

Foi em 1986 que Miller publico sua primeira obra-prima, Demolidor: A Queda de Murdock, história que mudou o status do personagem, antes relegado eu plantel C da editora. Trouxe humanidade, bons diálogos e uma narrativa envolvente, quase sufocante. A trama deve ser base da segunda temporada da série protagonizada pelo personagem criada através da parceria entre Marvel e Netflix. Miller diz não assistir a nenhum episódio do programa, mas se mostrou, como esperado, reticente às adaptações de suas tramas para as telas - grandes ou pequenas.

"O senhor assistiu à série?", tentou o entrevistador.

"Não", respondeu o quadrinista, em tom grave.

As pessoas da plateia riram, aplaudiram com a felicidade de testemunhar a rabugice pela qual Miller é tão famoso. Ele também se deu por satisfeito com a resposta curta. Agradeceu à ovação com um leve aceno e, sou capaz de jurar, um sorriso largo.

Miller ainda mostrou seu azedume característico ao falar sobre a personagem Elektra, criada por ele nos seus anos de trabalho com o Demolidor, que também será apresentada na segunda temporada da série. "Eles podem chamar (a personagem) do que quiserem", diz. "Mas não é ela."

Sobre Batman: O Cavaleiro das Trevas, que completa a terceira década de existência no próximo ano, Miller entende se tratar de um clássico do gênero. "É, sem dúvida, uma das melhores histórias que já escrevi. Um dos meus maiores sucessos. Mas, sabe, eu sou muito jovem ainda para dizer que aquela foi a minha última obra-prima."

Na história, um Batman mais velho, volta a combater o crime, ainda com métodos violentos e pouco ortodoxos. Em determinado momento, o Superman, a comando do presidente dos Estados Unidos, decide colocar um fim nas ações do Homem-Morcego. Ele só não contava que pudesse ser derrotado por um humano comum, mas com recursos e perspicácia.

Miller diz que tem uma vontade de inverter o ponto de vista. Disse ter vontade de trabalhar com o Superman e, num embate entre ele e Batman, transformar o Morcegão no vilão da história. Se essa trama, de fato, se materializará em quadrinhos, Miller não revelou.

A história de Batman é, na verdade, uma trilogia. Em 2001, Miller lançou o segundo volume da saga, mas obteve críticas alternadas. Agora, ele lança a terceira e última parte, chamada em inglês de Dark Knight 3: Master Race (ainda não há tradução para o português, embora o livro esteja previsto para chegar ao Brasil em 2016). Sobre a HQ, Miller falará no domingo, 6, em outro painel da CCXP.

Ao fim da entrevistas. Foi aberto um período de perguntas e respostas com integrantes da plateia. Ali, um rapaz, com uma edição já bastante gasta de 300, disse ao microfone que foi graças àquela edição em suas mãos, a primeira HQ comprada por ele, que se tornou um fanático por quadrinhos.

Disse em inglês, entre soluços e pausas para tentar conter as lágrimas. Não queria perguntar nada ao mestre. Pediu por um autógrafo. O salão inteiro aplaudiu, surpreso, quando Miller decidiu deixar a poltrona na qual estava sentado há quase uma hora e andou em direção ao rapaz. Escreveu, por um bom período de tempo, uma dedicatória ao fã na capa do álbum. Com as mãos tremendo, o guri pediu por uma foto. Ousado, certamente. Foi o único a garantir uma selfie com Miller. Mas não foi o único a ir às lágrimas.

 

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