Franco Nero, o eterno Django, em versão ativista

Ator italiano está no filme A Memória Que me Contam, de Lúcia Murat, sobre a ditadura militar no Brasil

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2013 | 02h07

Quando conversou pela primeira vez com o Estado, há cerca de dois anos, Franco Nero rodava, em Paulínia, A Memória Que me Contam, de Lúcia Murat, e tentava entender a dinâmica do set de filmagem no Brasil e do português, que, na trama do longa, ele fala com desenvoltura. O ator, eterno Django, estava em seu "centésimo e tanto" filme e alegrava-se de ser dirigido por uma brasileira, no caso Lúcia Murat.

Há uma semana, quando voltou a falar com o Estado, desta vez por telefone, de Roma, onde vive, preparava-se para filmar novamente com uma mulher e fazia planos de completar neste ano a marca de 200 filmes. "Não parei desde aquela época. O filme da Lúcia ficou pronto, já rodei até Django com o Tarantino, acabei de fazer um filme em Portugal, Candences Obstinées, dirigido por Fanny Ardant, e nesta semana começo outro longa com uma diretora. É meu destino trabalhar com as mulheres" diz o ator, de 72 anos, que, mesmo com tantos filmes no currículo, vai ser sempre Django, papel que vive dirigido por Sergio Corbucci nos anos 60. "Tenho muito orgulho deste personagem. Inspirou o Tarantino a fazer o Django dele. E deve ganhar em breve uma continuação de Hollywood. Mas fiz tantos outros filmes, quero também ser lembrado por eles", acrescentou o ator, que tem no currículo parcerias com mestres como Werner Fassbinder (Querelle) e Luis Buñuel (Tristana).

O longa que Nero se preparava para começar a rodar esta semana na Croácia tem direção de Jasmila Zbanic, que venceu o Festival de Berlim em 2006 com o filme Grbavica. "As mulheres são incríveis diretoras. Fazem a gente trabalhar duro. São detalhistas e querem sempre muita dedicação. Gostam do risco. São fortes!"

É exatamente da história de uma mulher forte que trata A Memória Que me Contam, que tem estreia prevista para sexta. Livremente inspirado nas vivências de um grupo de amigos, conta a história de Ana (Simone Spoladore), uma ex-militante política que entrou para a luta armada durante a ditadura no Brasil, assaltou banco e sequestrou o embaixador norte-americano, foi presa, torturada e até hoje enfrenta as sequelas que a violência deixou em seu corpo e sua mente.

Quando o filme começa, está doente, na UTI, entre a vida e a morte. Enquanto isso, seus amigos se dividem entre tocar suas vidas e aguardar por notícias na sala de espera do hospital. Entre eles, está Irene e Paolo de Lucca. Irene (vivida por Irene Ravache) é uma diretora de cinema que tem pesadelos com o fato de que não vai conseguir realizar todos os filmes que quer antes de morrer. Há também Duda (Miguel Thiré), filho de Irene, que simboliza a nova geração e seu descompromisso com as causas e engajamentos da geração de sua mãe.

Já o pesadelo de Paolo é ser procurado pela Justiça italiana sob a acusação de terrorismo por causa de um atentado à bomba que, por acidente, matou duas pessoas nos anos 60. "O papel do Paolo é importante e eu queria que um ator italiano de fato fizesse o papel. E Franco é alguém que admiro há tanto tempo, que filmou com grandes mestres, que em vez de ficar restrito a Hollywood, onde poderia ficar a vida toda, sempre fez questão de trabalhar com diretores do mundo", diz Lúcia Murat. "Ele é um ator de cinema, que tem a paciência necessária no set, que é tranquilo e fácil de conviver. Faz até a própria maquiagem! É incrível."

Para Nero, A Memória Que me Contam foi a chance de conhecer melhor a história da América Latina, que, a seu ver, tem muito em comum com a italiana recente. Sobre cinema, Brasil e, claro, Django, Nero falou ao Estado.

Como foi filmar no Brasil?

Muito bom. Sempre tive curiosidade de filmar no Brasil. Nos anos 80, ia fazer um filme chamado Garimpeiros. Estava tudo pronto, mas foi cancelado. E, quando recebi o convite da Lúcia, fiquei muito curioso. O personagem era muito interessante. Disse sim e me diverti muito. Havia sempre algum restaurante italiano que nos convidava para jantar...

O Brasil tem de fato muito em comum

com a Itália.

Exato! Nós latinos somos muito mais solares. Não somos fechados e emburrados como os do norte da Europa. Lembro que há muito tempo fui convidado para fazer um filme em que interpretaria um maestro de orquestra. Mas, para isso, tinha de filmar por 14 semanas em Berlim Oriental. E eu tinha acabado de passar quase um ano filmando na Rússia, sofrendo com o frio. Então, disse: "Aceito com uma condição. Que eu possa levar três italianos comigo". Disseram que não. Não aceitei e fui fazer um filme na Colômbia. Muito mais solar e divertido.

Como vê a história do filme?

Eu me sinto próximo dela. Estudei muito o assunto e pude ver quanto foi terrível a ditadura no Brasil. Lúcia me contou muitas histórias. Das pessoas que foram torturadas, violentadas, das que enlouqueceram, como Vera Silvia Magalhães, que morreu em 2007 e foi um ícone da luta pela liberdade. Não é por acaso que este filme é dedicado a ela e fala um pouco dos amigos que se reuniam na sala de espera do hospital em que ela ficou internada. Era assim que o filme se chamava, Sala de Espera. E este assunto é algo que me faz pensar que a luta pelos direitos humanos é muito importante. É muito bom que a Comissão da Verdade tenha sido criada, para que a ditadura, assim como se diz sobre o nazismo, não se repita.

Você mantém um orfanato

há mais de 30 anos. Como é

este trabalho?

É minha missão de vida. Sempre lutei pelos direitos humanos, eu e minha mulher (Vanessa Redgrave). E mantenho um orfanato no qual cuidamos de crianças de vários países. É uma missão que me ensina a ser humilde, a não me lamentar à toa. Aprendi que lutar pelos direitos humanos é isso e também fazer um filme como esse.

E, sobretudo, tem importância para o Brasil, que levou tanto tempo para abrir os arquivos da ditadura.

Sim. A criação da Comissão da Verdade é muito importante. É forte saber do depoimento que Lúcia deu. Mas é importante. Esse seu filme não é comercial, sua função é outra, mas espero que seja visto pelo máximo de pessoas possíveis.

Você atualmente

filma muito fora da

Itália. E em casa?

Em geral, na Itália hoje só filmo para ajudar jovens diretores em seus primeiros filmes. Não quero fazer TV.

E a homenagem que você

recebeu de Tarantino em

Django Livre?

Tarantino, um belo dia, me ligou e disse: "Franco, fiz um filme inspirado em você. A gente tem que se encontrar porque você tem que estar nele". E nos encontramos em Los Angeles. Disse a ele que não fazia questão de estar no filme. Mas ele insistiu e eu aceitei. Confesso que pensava que minha cena seria mais longa na versão final. Filmamos muito, rodei duas cenas com Leonardo DiCaprio e depois a cena do balcão com Jamie Foxx, mas o filme estava longo demais e ele teve de cortar. De qualquer forma, fiquei muito feliz com a homenagem.

Tarantino tem um faro bom para resgatar grandes personalidades e trazê-las de volta, revisitadas.

Sim. Ele é genial nisso. Aos 14 anos, ele trabalhava numa locadora. E acredita que ele viu todos os meus filmes e sabe de cor as piadas? É um absurdo! Ele deu uma entrevista dizendo que queria trabalhar comigo no futuro. Tomara!

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