Francisco Weffort não teme governo de 2003

Ministro da Cultura desde 1995, Francisco Corrêa Weffort encerrou 2001 com um balanço positivo para a área e com uma visão otimista com relação à evolução cultural do País. Para ele, a cultura, de uma forma geral, tem evoluído consideravelmente, especialmente depois que assumiu o ministério. Mas ainda há muito por se fazer. "Temos, sim, um longo caminho a percorrer, mas com a consciência de que estamos no caminho certo", argumenta.Em entrevista à Agência Estado, por e-mail, o ministro faz uma análise dos principais segmentos da cultura. Diz que a cultura tem avançado o terreno das camadas mais populares e que este é o movimento ideal. Também ressalta que o País tem conseguido se expor mais reconhecidamente no difícil circuito internacional das artes, muito embora, em áreas como a do cinema, ainda exista uma significativa carência produtiva. "Temos que aumentar a produção, muito mais do que já temos feito, se quisermos, de fato, nos erguermos como reais competidores dentro do nosso próprio país", ressalta. O futuro, sinaliza Weffort, não é sombrio. Isso desde que todos os esforços realizados até agora no sentido de dar fomento à cultura não sejam represados. "Temos que manter a continuidade dos esforços atuais, seja qual for o governo que venha por aí. Há muita coisa que se pode melhorar, mas não há nada que se deva romper." "Tenho confiança de que o próximo governo compreenderá isso claramente", conclui.Agência Estado - Como o senhor avalia a atual posição do Brasil no segmento cultural? É possível aliar padrões típicos de uma economia em desenvolvimento com patamares adequados de desenvolvimento da cultura?Francisco Weffort - Difícil relacionar padrões de desenvolvimento cultural com padrões de desenvolvimento econômico. Os padrões do desenvolvimento cultural de um país dependem sobretudo da história da formação do seu povo. O Brasil é um País de cultura forte, com uma peculiar e vasta diversidade, e, contudo, com uma notável unidade. A impressão que se tem é que o País ainda tem um longo caminho a percorrer em relação à cultura. Qual seria, na sua opinião, o direcionamento mais adequando neste momento?Foi notável, nos últimos anos, desde 1995, a abertura das exposições de arte para o povo. Um exemplo, já em 1995, foi a exposição Rodin. Outro, a Mostra Brasil 500 anos, que atraiu 1 milhão e meio de pessoas. Ainda agora, em Porto Alegre, a Bienal do Mercosul ultrapassou os 550 mil. Do mesmo modo, os espetáculos de música erudita - para não falar da música popular, onde isso é evidente -, se tornaram atração de massa. Temos, sim, um longo caminho a percorrer, mas com a consciência de que estamos no caminho certo. Vai terminando no Brasil a separação antiga entre cultura de elite e cultura popular. É neste rumo que devemos caminhar.Fala-se num momento de transição para o segmento artístico nacional e que a produção de filmes como "Lavoura Arcaica" seria um exemplo emblemático disso. Temos uma linguagem tipicamente urbano-brasileira exposta nas telas de uma forma não arcaica. A abordagem de questões existenciais mais próximas do cotidiano social pode ser uma tendência mais efetiva?O cinema brasileiro desta fase tem uma característica plural que só o enriquece, como expressão artística e como tomada de consciência do que somos como País. Diferente de outras fases em que nosso cinema parecia fixar-se em modelos ?ideológicos ou artísticos ?agora temos de tudo, desde filmes voltados para a grande massa até filmes autorais de caráter experimental."Abril Despedaçado", de Walter Salles, foi o escolhido para concorrer ao Oscar 2002. Como o senhor vê esta indicação? Será que tem mais chances do que "Central do Brasil"? Abril Despedaçado tem boas condições de ganhar o Oscar. Mas temos que levar em conta que não somos nós quem decidimos, mas a Academia, centrada nos padrões de Hollywood. Do meu ponto de vista, o simples fato de competirmos com filmes de qualidade, já é algo de grande valia. No Brasil, ainda existe a tradição de valorização demasiada do produto externo. O senhor acha que o cinema está, de alguma forma, rompendo este preconceito?Infelizmente, ainda não. Embora tenhamos melhorado muito ?pois desde 1994 passamos de dois filmes por ano a 25-30 filmes por ano ?somos ainda uma minoria em nosso próprio mercado. A produção nacional entrega apenas 10% dos títulos oferecidos por ano nas salas de exibição. E quem entrar em um videoclube perceberá que somos uma pequena minoria nas estantes. Que temos critérios próprios, não tenho dúvida. Que o brasileiro gosta de ver filme brasileiro, me parece evidente. O problema é que temos que aumentar a produção, muito mais do que já temos feito, se quisermos, de fato, nos erguermos como reais competidores dentro do nosso próprio País.Ainda sobre esta possível mudança de paradigma, parece que também há uma certa "troca de guarda" em outro setor. Hoje, temos nas artes plásticas uma nova geração de artistas muito mais interativa, seguindo padrões bem menos contemplativos e reflexivos.Creio que há uma natural renovação, não uma "troca de guarda". Os mestres continuarão sendo mestres. O que não impede que surjam novos. Isso vale para qualquer área da cultura e, com mais razão, nas artes plásticas e na literatura.Falando nisso, a literatura, que parece ter sofrido uma espécie de "gap", também reflete o mesmo com o lançamento de obras mais comerciais e ainda com reduzidos exponentes. Como o senhor vê esta área?Quanto a isso de "contar nos dedos os nomes representativos", minha opinião é outra. Nosso problema não é a falta de bons livros nem de bons autores. O problema é que nos tornamos rapidamente uma sociedade de massas e o livro, como produto e como expressão cultural, tem que competir com formas culturais típicas de sociedades de massas. Por exemplo, a TV ou, como disse antes, os espetáculos musicais e as grandes exposições. A projeção do nome de um escritor é muito mais difícil de se realizar agora do que nos anos 30, por exemplo. À parte algumas exceções, o romancista ?e mais ainda o contista e o poeta ?se acha limitado, pelas circunstancias, a escrever para uma minoria daquilo que poderia ser o seu público. Precisamos de mais escritores, sim. Mas precisamos, sobretudo, de mais bibliotecas públicas, de livros mais baratos, de um sistema de distribuição mais eficiente, através de livrarias e de pontos de venda. Tudo isso virá a seu tempo. Mas não depende apenas da cultura, depende também da economia.A dança brasileira também dá importantes passos. É cada vez maior o número de companhias do exterior que vêm buscar alunos nas escolas brasileiras de dança. Seria um novo perfil que estaria emergindo e podemos esperar grande progresso nesta área?O Brasil é um País da música e da dança. No exterior, temos um grande número, algumas centenas, de bailarinos brasileiros. Ainda recentemente, alguns eles ganharam prêmios em Moscou, uma espécie de santuário da dança clássica. Em contrapartida, parece que o teatro passa por um momento de estagnação. O que pode estar acontecendo?Não concordo que o teatro esteja estagnado. Tivemos um período muito difícil, até início dos anos 90. No teatro, como no cinema, estamos retomando a caminhada. O número de espetáculos ?por exemplo em São Paulo e no Rio de Janeiro ?vem aumentando visivelmente. E isso há de ter repercussão positiva sobre o desenvolvimento da nossa dramaturgia.De uma forma geral, qual o balanço que o senhor faz da cultura no Brasil, já que no próximo ano teremos a troca de governo, e o que podemos esperar para 2002? O pior que nos aconteceu na cultura na década de 90, foi o corte institucional provocado por decisões catastróficas do governo Collor que romperam com a continuidade em relação ao que se vinha fazendo antes. Temos que manter a continuidade dos esforços atuais, seja qual for o governo que venha por aí. Há muita coisa que se pode melhorar, mas não há nada que se deva romper. Podemos talvez fazer correções de rumo, mas cortar com o que se vem fazendo, parece-me simplesmente um desastre. Reforme-se, aprimore-se e, sobretudo, faça-se crescer mais o que já vem crescendo. Rupturas como aquelas feitas durante o governo Collor são um perigo, não significam nenhum avanço, apenas retrocesso. Tenho confiança de que o próximo governo compreenderá isso claramente.

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