Francisco Costa cria moda democrática e essencial para fast fashion brasileira

Em mais de 70 peças, coleção traz itens como camisas, vestidos, calças e acessórios com informação de moda a preços acessíveis

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

26 de abril de 2014 | 17h30

E se o fast-fashion pudesse agregar a vantagem de oferecer informações de moda a preços acessíveis com a qualidade e a atemporalidade de peças de grife? E se Francisco Costa criasse uma coleção exatamente assim, unindo o DNA minimalista e clássico que ele imprimiu à Calvin Klein, grife do qual ele é diretor criativo há 12 anos, a uma marca popular? Pois foi exatamente o que o brasileiro fez ao criar sua primeira coleção para a C&A, que já convidou nomes fortes do circuito fashion internacional como Roberto Cavalli, Anne Fontaine, Daniella Helayel e Stella McCartney.

Lançada na última semana, a coleção traz dezenas de peças fáceis e clássicas, que podem ser usadas por muitas estações e que levam o estilo cuidadoso do estilista mineiro a públicos que vão muito além dos fashionistas de plantão. "Esta coleção não é uma fast fashion, pois as roupas não têm o caráter de durarem somente uma coleção ou serem descartáveis. É uma fast fashion para durar. É para colocar no guarda-roupa para se usar a vida inteira", comentou o estilista em conversa com o Estado no início de abril, quando ele passou por São Paulo para conversar com jornalistas e profissionais de moda sobre sua nova empreitada.

Para Costa, o convite da C&A surgiu em um momento em que ele pode dialogar com públicos diversos, tanto os que já buscam a moda mais autoral com os que só agora começam a ter acesso à informação de moda. Mais que popularizar sua assinatura, a coleção transpõe seu olhar para uma moda mais democratica. Mas criar para o fast fashion não seria dividir seu talento entre a alta moda e a mais imediatista? "Não divido. Ao contrário. Agrego as duas coisas. As roupas que criei são super básicas, mas clássicas. O público participa de algo que considero inédito. É uma coleção dinâmica. São peças de preço acessível, com modelagem de coleção, a mesma que eu uso para a Calvin Klein. Acrescentou-se o meu portfólio à possibilidade de atender um público muito maior. Eu também ganhei com esta experiência", disse Costa, que antes de assumir na Calvin Klein foi assistente de Tom Ford na Gucci.

Engana-se quem pensa que se trata de mais uma das coleções de fast fashion que faz bom uso de marcas registradas de estilistas que têm na estampa seu ponto forte, o que torna uma peça, mesmo mais simplista, facilmente reconhecível. No caso de Costa, que quase nunca usa estampa em suas criações da Calvin Klein, é justamente na economia de cores e na aposta de tecidos de qualidade e acabamento cuidadoso que está a força de sua assinatura. "E trouxe isso para a C&A. Espero que as brasileiras entendam que é uma roupa atemporal, simples, com espírito muito brasileiro, que fala da intenção de modernizar a forma como a mulher se veste", comentou o estilista.

"Estamos sofrendo um momento de vulgarização da mulher. Isso me incomoda muito. Não é por aí. A mulher pode ser sexy sem se vulgarizar. Ela pode manter seu espírito de sedução sem apelações. Meu estilo é o posto disso", analisa Costa. "Durante esta década na Calvin Klein, pude desenvolver um trabalho próprio e conquistar respeito internacional com minha forma de ver a moda. Isso foi muito importante", continua. "Quando a companhia foi vendida, há 11 anos, por US$ 700 milhões. Hoje ela está avaliada em quase US$ 9 bilhões. Não é algo pelo qual sou responsável isoladamente, mas é algo para qual contribuí."

De fato a experiência que Costa trouxe de sua passagem por casas como a Gucci e Oscar de la Renta fez com que ele pudesse agregar valor a uma marca que se expandiu para públicos de diversos níveis econômicos. A Calvin Klein hoje é uma grife acessível, para diversos bolsos e gostos. "Minha função é elevar o produto enquanto esta parte continua se expandindo."

De volta à coleção para a C&A, Costa pensou em seu sexy clássico para criar peças confortáveis, em que os tecidos e o corte são protagonistas. "Estou muito feliz com o produto. Os tecidos são bons, a qualidade é boa. E a alegria da brasileira está presente nela. Há blusas lindas, calças básicas. É uma coleção urbana e fresca."

Para trazer a brasilidade a esta coleção popular, o estilista investiu nas cores. Ainda que o preto e branco sejam predominantes, há o verde e o amarelo que quebram a sobriedade. "Me inspirei também na arquitetura brasileira, mas a mulher brasileira é a essência de tudo. Quando penso na brasileira, penso em grandes mulheres como Maysa, Elis Regina. Elas são sinônimos de sedução, de algo que é muito autêntico, espontâneo e inteligente. É disso que falo. Da auto-confiança das nossas mulheres lindas."

Nas araras, isto se traduz em 70 peças, entre vestidos, sandálias, camisas, saias etc, que trazem um estilo híbrido entre o minimalismo de Costa e a exuberância brasileira. Destaque para camisas e calças que são peças-chave no guarda-roupa, além dos acessórios, além de botas e botas estampadas. "Acho que o life style brasileiro é isso. Como a Osklen, que tem uma moda linda, com qualidade. É sexy, mas não é vulgar. Respeita o espírito brasileiro e é ao mesmo tempo super cool. Falando em moda brasileira, é o que mais gosto. Sempre que venho ao Brasil, levo algo da Osklen", conta o mineiro, que também acompanha o trabalho de Alexandre Herchcovitch.

"É outro que tem um trabalho incrível. Há um olhar lá fora para nossa moda sim. Para nossa arte, para nossa música. É hora de valorizarmos esta nossa essência única. Temos um jogo de cintura, um modo de ser que seduz, que não existe em nenhum lugar do mundo. Se soubermos agregar isso à nossa moda, vai ser incrível."

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