Francisco Ayala completa 100 anos e ganha homenagem

O escritor espanhol Francisco Ayala completa amanhã 100 anos, "angustiado com tanto carinho" e com o desejo de que os atos de homenagem pelo centenário não sejam uma retrospectiva de sua vida e sua obra, mas uma reivindicação da liberdade como motor vital.Na véspera de seu aniversário, Ayala agradeceu a atenção que recebeu da sociedade, mas afirmou que prefere aproveitar a data para promover a luta pela dignidade e autonomia do espírito humano, eixos do seu trabalho.Num encontro com jornalistas, o patriarca das letras espanholas esbanjou lucidez, ironia e elegância para reiterar que sua curiosidade - "uma desgraça, porque as coisas que a gente vê não são muito bonitas" - é o grande segredo de sua longevidade."É um defeito pessoal, o de ser muito curioso", explicou o autor de O Jardim das Delícias, que contrapôs sua situação à de quem "quando chega a uma certa idade perde a curiosidade e só tem interesse pela sopa que vai ganhar".Ayala estava acompanhado por sua mulher, Carolyn Richmond, e pelo escritor espanhol Luis García Montero, organizador dos atos do centenário, que começam amanhã com uma conferência do ex- diretor-geral de Unesco, Federico Maior Zaragoza.A conferência abrirá um ciclo, sob o título de Meditações sobre a Liberdade - durante o mês de março, autores e pensadores da cultura hispânica como Jorge Edwards, Emilio Lledó, Juan Luis Cebrián, Victoria Camps e Elías Díaz abordarão a obra de Ayala.García Montero explicou que a única exigência do homenageado foi "não chatear, que não seja tudo a respeito dele e que se fale de suas preocupações fundamentais".Seu único temor, acrescentou García Montero, era que "num rasgo de má-criação granadina, não chegasse ao centenário". Mas Ayala soprará amanhã as cem velas na Biblioteca Nacional, em um jantar com os reis da Espanha e a sua família.Em sua conversa com os jornalistas, repassou a sua vida: a infância em Granada, a juventude no Real Madrid antes da Guerra Civil, o longo exílio em Porto Rico, Argentina e Estados Unidos, e seu retorno para participar da transição democrática.Falou muito do exílio, que definiu como "um horror, uma dor e um sofrimento insuportáveis", mas que "para nós, que fomos à América, foi ao contrário; todos subimos um degrau".Apesar ser uma referência cultural entre os exilados, Ayala nunca quis ser um símbolo e isso foi o que na sua volta ao país, em 1960 (15 anos antes da morte do ditador Francisco Franco), ajudou-o a "aceitar a realidade como era, sem criar falsas ilusões"Depois veio a transformação política e econômica da Espanha que, na sua opinião, "é hoje um país moderno para o bem e para o mal, como qualquer outro da Europa".Ayala não acredita na imortalidade e encara a morte de frente. "Desde que nasci soube e tive consciência de que iria morrer e com essa consciência se pode caminhar tranqüilo", disse."Vivi tudo o que tive que viver, com paixão e interesse", acrescentou. Por isso, rejeitou fazer uma lista dos momentos mais felizes de sua vida: "este é um deles, porque vejo um grupo de gente interessada em saber que sou, fui e não serei mais".Ao viver o presente, ele mostra indiferença pelo futuro e pela maneira como será recordado quando não estiver mais vivo. "Não imponho nada a ninguém. Que cada um me lembre como lhe der vontade", concluiu.

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