Francês Le Clézio é o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura

O mais cobiçado prêmio literário do mundo vai para escritor que já admitiu influência de Euclides da Cunha

Teresa Ribeiro, com agências internacionais,

09 de outubro de 2008 | 08h06

O mais prestigioso e cobiçado prêmio literário do mundo vai para o escritor Jean-Marie Gustave Le Clézio, anunciado nesta quinta, 9, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2008.  A Academia considerou Le Clézio "um escritor da ruptura, da aventura poética e do êxtase sensual, explorador de uma humanidade além da civilização dominante".  O escritor se destacou como romancista com Deserto, em 1908, uma obra que, segundo a Academia "contém imagens magníficas de uma cultura perdida no deserto do norte da África, com a descrição da Europa vista pelos imigrantes indesejados".  Veja também:Ouça entrevista de Le Clézio em inglês  Leia trecho de 'O Africano', de Le ClézioLe Clézio conta como recebeu a notíciaLeia entrevista de Le Clézio ao 'Estado' em 1997 Com mais de 30 livros publicados, Le Clézio é o primeiro escritor nascido na França a ganhar o prêmio após Claude Simon, em 1985. Em 2000, o Nobel foi concedido ao escritor nascido na China, mas naturalizado francês Gao Xingjian.  Le Clézio disse ter ficado "muito comovido" ao saber que havia sido o escolhido. Contou que foi sua mulher quem atendeu ao telefone e recebeu a notícia, da Academia sueca, enquanto ele estava lendo e escrevendo. Em entrevista a uma rádio sueca, agradeceu "com muita sinceridade à Academia Nobel", dizendo que também irá ao país em 25 de outubro para receber o prêmio literário sueco Stig Dagerman, que foi atribuído a ele em junho. Pouco antes da notícia do prêmio, Le Clézio falou a uma emissora de rádio francesa que a possibilidade de ganhar tal prêmio "é algo que faz você continuar publicando, que dá vontade de seguir escrevendo... Nós escrevemos para ser lidos, para encontrar respostas e essa é uma resposta".  O prêmio Nobel de literatura consiste em 10 milhões de coroas suecas (US$ 1,3 milhão ou R$ 2,63 milhões), uma medalha de ouro e um diploma.  Le Clézio,  de 68 anos, vive entre Albuquerque, no Novo México, a ilha Maurício e Nice, cidade francesa onde nasceu em 13 de abril de 1940. Sua forte ligação com a ilha Maurício, antiga colônia francesa conquistada pelos britânicos em 1810, vem do fato de seus pais terem nascido lá. Seu pai era um médico inglês e sua mãe, francesa. Aos 8 anos, mudou-se com a família para a Nigéria, onde seu pai trabalhou como médico durante a 2.ª Guerra Mundial e aí começou precocemente sua carreira literária, com dois livros: Un Long Voyage e Orandi Noir. Ele cresceu entre duas línguas, francês e inglês. Em 1950, sua família voltou para Nice. Formado em Letras, estudou na França, na Inglaterra e fez sua tese de doutorado no México. É autor de romances, contos, ensaios, novelas, literatura infanto-juvenil, e ainda jovem, aos 23 anos, ganhou o prêmio literário Renaudot pelo seu livro Le Procès-verbal, chamando a atenção para sua literatura.  É casado e tem duas filhas. No Brasil, tem alguns livros publicados, entre eles, À Procura do Ouro (Brasiliense, 1985) O Deserto (Brasiliense, 1986); Diego e Frida (Escrita, 1994) A Quarentena (Companhia das Letras, 1997) e Peixe Dourado (Companhia das Letras, 2001) e O Africano, (Cosac & Naif, 2007).  Os três últimos ainda podem ser encontrados nas livrarias. A editora vai publicar um novo título do autor, Ballanciner, com a reunião de três entrevistas, além de artigos sobre cinema. Por ocasião do lançamento de seu livro A Quarentena, em 1997, o escritor concedeu uma entrevista ao jornalista José Castello, à época colaborador do Estado, em que admitia influência de Os Sertões, de Euclides da Cunha, para compor um tipo de história que gosta, a da luta do homem com seus limites. Seu romance reflete a aventura de sua família, que emigrou da Bretanha, na França, para a Ilha Maurício,  ainda no século 18. Segundo Le Clézio, os livros que o influenciaram definitivamente para compor sua obra foram os de Robert Louis Stevenson, como A Ilha do Tesouro e Kidnapped. Outro, segundo o escritor, foi Os Sertões, de Euclides da Cunha. "Eu diria que, ao começar a escrever A Quarentena, quis fazer um livro que ficasse entre Kidnapped e Os Sertões, isto é, que ficasse entre uma aventura literária e uma reportagem.  No início da tarde, o escritor falou com os jornalistas na sede da editora Gallimard, que publica seus livros, em Paris, cidade onde estava de passagem, fazendo uma escala entre a Coréia do Sul e o Canadá, fiel à sua fama de viajante incansável. "Escrever não é apenas sentar à mesa consigo mesmo, é escutar o ruído do mundo. Quando você está na posição de escritor percebe melhor o ruído do mundo, vai de encontro ao mundo", disse. Para Le Clézio, recomendou a leitura de romances, como "uma forma de questionar o mundo. O romancista não é um filósofo ou um técnico da língua, é alguém que faz perguntas e se há uma mensagem que eu gostaria de passar é que se façam perguntas." Le Clézio afirmou que se sente francês, mas disse que sua pátria está nas ilhas Maurício, ex-colônia francesa de onde procede sua família. Além disso, o escritor se definiu como um apaixonado pelo México e a cultura latino-americana. O prêmio O vencedor do Prêmio Nobel de Literatura é sempre divulgado pelo secretário permanente Horace Engdahl, nos escritórios do século 18 da entidade, na parte histórica de Estocolmo. Engdahl causou polêmica ao menosprezar a literatura norte-americana na disputa pelo prêmio na semana passada. Disse que o país é demasiado insular e ignorante para competir com a Europa como centro literário do mundo. "Eles não traduzem o suficiente e não participam realmente do grande diálogo da literatura", disse Engdahl. "Essa ignorância é limitante", acrescentou. Vários nomes figuraram entre os favoritos do ano, como o italiano Claudio Magris, o sírio-libanês Adonis, o americano Thomas Pynchon, a canadense Margaret Awood e o japonês Haruki Murakami encabeçavam a lista de apostas para o prêmio deste ano.  A casa de apostas britânica Ladbrokes deu ao jornalista e acadêmico italiano Claudio Magris uma chance em três, seguido pelo israelense Amós Oz e pela norte-americana Joyce Carol Oates até a semana passada. Ontem, talvez como efeito das declarações de Engdahl, a cotação indicava Claudio Magris em primeiro, o poeta sírio Adônis em segundo e Oz em terceiro. Phillip Roth, o favorito de 2007, caiu para quinto lugar na lista da Ladbrokes. No último lugar, com uma chance em 150, ficou o cantor e letrista norte-americano Bob Dylan.  A romancista britânica Doris Lessing foi uma vencedora surpresa no ano passado.  Alfred Nobel, que fez fortuna ao inventar a dinamite, criou os prêmios para a paz, a literatura e várias ciências em seu testamento, em 1895. Os prêmios foram entregues pela primeira vez em 1901 e um prêmio adicional, para a economia, foi estabelecido em memória de Nobel, em 1968.  Os prêmios são entregues em 10 de dezembro, data da morte do fundador do prêmio, Alfred Nobel, em 1896.  (Última alteração às 12h45)

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