França sob Hitler

A Tristeza e a Piedade, de Marcel Ophuls, desfaz mitos da resistência e da colaboração

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2011 | 00h00

Foi em 1969, um ano depois dos eventos de maio de 1968, que Marcel Ophuls apresentou seu explosivo documentário A Tristeza e a Piedade, revendo a posição da França durante a ocupação nazista na 2.ª Guerra.

Em 1968, estudantes e operários colocaram De Gaulle contra a parede, mas o velho general teve a última palavra com o plebiscito que lhe deu apoio da população. Charles De Gaulle era símbolo da "França resistente" diante do ocupante alemão. Ophuls, em seu magnífico documentário de mais de quatro horas de duração, problematiza essa visão patriótica e unilateral.

Trabalhando com depoimentos de pessoas que viveram a época e também com farto material de arquivo, Ophuls toma como ponto de análise apenas uma cidade francesa - Clermont Ferrand - e tenta entender como seus habitantes viveram sob a Ocupação. O título do documentário vem de um desses personagens, Marcel Verdier, membro da Resistência. Quando lhe perguntam sobre o heroísmo dos partisans, ele responde, simplesmente, que "os dois sentimentos mais frequentes da Resistência foram a tristeza e a piedade".

Esse retorno ao realismo dá o tom geral do filme. Sob a capa conveniente do heroísmo, aparece o fato de que, ainda que durante uma guerra de ocupação, as pessoas continuam a viver. Precisam comer, vestir-se, abrigar-se, amar, divertir-se. E a reação ao ocupante vai da oposição armada à colaboração pura e simples, numa extensão que a História oficial prefere ignorar.

O que desaparece como fumaça é o mito de que a França foi uma nação unanimemente resistente ao ocupante alemão. Do amplo conjunto de depoimentos, emerge um tecido complexo de sentimentos e reações à presença nazista. Em geral, essa ambivalência é facilmente detectável vista na fala de pessoas comuns. Por exemplo, naquele comerciante que, tendo o sobrenome Klein, apressou-se em publicar um anúncio de jornal assegurando a todos que não era judeu. Ou na mulher que conviveu com alemães, teve a cabeça raspada e foi exposta à humilhação pública na liberação. Mas, sim, há o depoimento impressionante de figuras públicas como Mendès-France e a descrição de sua fuga de uma prisão. E a relação contraditória das pessoas a Laval e Pétain, os governantes da república títere de Vichy.

Produzido pelas TVs da Alemanha e da Suíça, A Tristeza e a Piedade só viria a ser exibida na televisão francesa em 1981. Mas, tendo estreado em 1971 nos cinemas, foi logo reconhecida como obra-prima humanista, ainda que incômoda. O filme juntou um coro paradoxal de descontentes, da direita nacionalista a Jean-Paul Sartre. A verdade dói.

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