França revê Jean Cocteau

Antes que a palavra multimídia se tornasse de uso tão corrente quanto vazio de significado, o francês Jean Cocteau, exemplo de versatilidade, escreveu, filmou e desenhou obras-primas. Por isso a França não cansa de voltar a esse multiartista por excelência, leitura obrigatória para os estudantes que se submetem ao exame classificatório para entrar na universidade. Suas obras completas estão sendo publicadas pela Pléiade e, recentemente, foi lançado um belo livro de arte em sua homenagem, intitulado Jean Cocteau - L´Oeil Architecte, de Francis Ramirez e Christian Rolot. A obra traduz em imagens e textos a qualidade de sua produção artística, que recusa o rótulo equivocado de "ultrapassada" e volta a viver intensamente. Outro livro, editado em 2000, na França, chamado Jean Cocteau - Le Poète e ses Doubles (O Poeta e Seus Duplos), discute as várias formas que Cocteau deu à poesia. Essa revalorização do artista, no entanto, não se repete no Brasil. Segundo a Biblioteca Nacional, o último título de Cocteau editado no País é Thomas, o Impostor (RioGráfica), de 1987. Antes dele, havia sido lançado Ópio - Diário de Desintoxicação (1985, Brasiliense). De lá para cá, uma editora mudou de nome (a RioGráfica adotou o nome da Globo de Porto Alegre, que comprou), a outra passou por sérias dificuldades financeiras e agora começa a se reerguer. Nem a exibição de 389 peças do artísta gráfico Cocteau, em 1997, em São Paulo, animou o mercado editorial a relançar sua obra escrita. O autor da peça A Voz Humana, monólogo que inaugurou o Teatro Brasileiro de Comédia, (Leia entrevista com Décio de Almeida Prado) só é encontrado em algumas livrarias brasileiras em edições portuguesas, francesas, inglesas ou norte-americanas. Isso apesar de nomes da vanguarda modernista brasileira, como Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, terem tido contato com Cocteau, um dos pilares da produção cultural francesa do período que vai do fim da 1.ª Guerra Mundial ao início da 2.ª e também um criador ativo após o término da luta contra os nazistas. Hoje, o Brasil não reproduz as modas artísticas européias - prefere as leituras anglo-saxãs. Talvez por isso Cocteau seja um estranho para o leitor e espectador brasileiro, privados de sua poesia, de seus romances, de seu teatro, de seu cinema. Podia ser diferente. Seria melhor não se imitar moda nenhuma - e também não deixar as boas coisas se perderem.Leia Mais

Agencia Estado,

11 de fevereiro de 2001 | 13h02

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