França relembra Malraux, seu primeiro ministro da Cultura

A França relembra hoje André Malraux, intelectual, ativista e político que muitos dizem ter sido quem definiu as bases da "diversidade cultural", como primeiro ministro da Cultura de um Governo francês. Em 23 de novembro de 1976 morria o agitador político que via a cultura como uma ferramenta de ação do Estado. Nascido em Paris em 1901, André Malraux foi criado por sua mãe, sua avó e uma tia após a separação de seus pais. Ele reconheceria depois que a sua infância não foi especialmente feliz. Por isso, um dos mecanismos que usava para escapar da realidade era a leitura. Malraux, quando adolescente, não tinha muito interesse nos estudos. Sequer se formou, mas freqüentava livrarias, cinemas e teatros. Foi uma questão de tempo até o jovem começar a exprimir no papel seu mundo interior, na forma de ensaios de teoria literária. Paixão pela literatura Os anos 20 são os das obras "farfelues" ("levianas"), um termo que adotou para seus textos, nos quais lutava contra o absurdo da vida humana através da imaginação e da fantasia. Alguns dos personagens de A Condição Humana (1933) são exemplos da sua visão literária, também fruto de sua própria experiência quando morou na Indochina, onde ficou preso quase um ano por roubar um baixo-relevo de um templo. Na época, alguns dos artistas e intelectuais que marcaram um período brilhante da cultura francesa, como Louis Aragon, André Breton, André Gide e Max Jacob, se mobilizaram em seu favor. Ao lado da paixão pela literatura, Malraux desenvolveu uma militância política que o levou a combater o fascismo e a viajar à Espanha para se unir aos republicanos na Guerra Civil, uma aventura que refletiu em A Esperança (1937). Depois do conflito na Espanha veio a 2.ª Guerra Mundial e o autor se uniu à resistência, embora tarde, recebendo por isso muitas Críticas. O "coronel Berger", nome que adotou no período, usou toda a sua bagagem cultural e de militância para entrar na política quando a guerra acabou, guiado pela mão do general De Gaulle, que sempre idolatrou. Ministro em 1945, Malraux ocupou diversos cargos no Governo até ser nomeado por De Gaulle, em 1959, como primeiro ministro de Cultura na França. Malraux, um "gaullista de esquerda", fez ao longo de 10 anos à frente do Ministério de Cultura uma gestão que teve traços personalistas. Política e obra social se misturavam. Popularizou o cinema, a música e os museus Com o objetivo de fazer da cultura um elemento administrado pelo Estado, Malraux aplicou uma política voltada para as massas, que popularizou o cinema, a música e os museus. Tudo isso se beneficiava de seu próprio prestígio e de sua relação com grandes nomes da arte da época, de Matisse a Picasso. Sua gestão, porém, não esteve livre de críticas. Alguns reprovaram o controle sobre a cultura e o desejo de esconder as carências culturais do país, usando o orçamento para financiar grandes projetos artísticos. O escritor agnóstico se reuniu com diversos estadistas, como Mao Tse Tung, John F. Kennedy e Jawaharlal Nehru. Mas foi surpreendido pelos protestos de maio de 68, que atribuiu a uma crise de civilização. Ainda assim, participou das manifestações para pedir a ordem pública. Existem vários centros culturais e colégios dedicados a Malraux na França, que nos próximos dias promoverão atos em sua homenagem. O atual ministro da Cultura, Renaud Donnedieu de Vabres, abrirá nesta quinta-feira as portas do Ministério para que os cidadãos possam ver o local onde Malraux trabalhou e alguns de seus objetos pessoais, que a família cedeu para este evento.

Agencia Estado,

22 Novembro 2006 | 14h32

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