França premia romance sobre o Brasil

O Brasil fez uma incursão repentina e brilhante na vida literária francesa. O prêmio Goncourt (mais alta recompensa da França para os romances) foi atribuído, em pouquíssimo tempo, a um romance cujo o título é eloqüente: Rouge-Brésil. O autor é Jean-Christophe Rufin. O romance gira em torno de um fato histórico ao mesmo tempo verdadeiro e surpreendente: em 1555, uma expedição francesa, apoiada pelas altas autoridades do Estado, põe na cabeça tomar o Brasil, quando esse país pertencia, evidentemente, a Portugal, país com o qual a França está em paz.Os brasileiros conhecem bem esse episódio barroco. Em primeiro lugar, porque vão visitar, na Baía de Guanabara, no Rio, "a ilha dos franceses", o pedacinho do Brasil em que os franceses se instalaram. Em seguida, porque um romance brasileiro de Antônio Torres, dizem que excelente, mas que ainda não foi traduzido para o francês, conta esse episódio.O autor hoje coroado, Jean-Christophe Rufin, foi um dos criadores da organização "Médicos sem fronteiras", que, há 20 anos, envia, para todos os lugares necessitados do mundo, ajudas médicas francesas. Ele conheceu, assim, o "canto leste" da África, e se inspirou nele para escrever um belo romance, L´Abyssin.Posteriormente, Rufin foi adido cultural no Recife. Ele tem um conhecimento profundo do Brasil e nos explica como descobriu a história da "baía dos franceses": "Tive a idéia há dez anos, quando morava no Brasil, no dia em que visitei, no Rio, um pequeno museu da cidade chamado Paço Real. Essa construção da época colonial está, hoje, asfixiada entre grandes avenidas e arranha-céus. É preciso fazer um esforço de imaginação para visualizá-lo em seu ambiente original... O museu expôs grandes pinturas que mostravam a baía no momento de sua descoberta. Via-se, no lugar do asfalto de Copacabana, pântanos onde voavam as aves pernaltas. As matas intactas estavam nos locais das favelas..."A breve temporada dos franceses no Rio é exemplar. Constitui uma síntese, um resumo de três problemas jamais resolvidos desde então: o choque entre a Europa e os "povos" nus do Novo Mundo (índios); as disputas entre dois países europeus, no entanto amigos, Portugal e França, desde o momento em que os interesses coloniais os colocam em oposição, e, enfim, a raiva que carregam dez anos antes da explosão das guerras de religião na Europa (as atrozes guerras de religião) entre os católicos e os protestantes.Guerreiro - E mais: o chefe da expedição, Villegagnon, guerreiro magnífico, cavalheiro de Malta, é um homem conciliador das questões religiosas. Ele acha lamentável que os protestantes e os católicos se odeiem. Ele traz calvinistas para mostrar que, nesse extremo do mundo, as duas religiões, em vez de se odiarem como na Europa, podem se amar.Infelizmente, querelas de alta teologia colocam muito rapidamente em oposição os calvinistas e os papistas. Villegagnon esquece seu ecumenismo e as duas religiões se massacram. Com dez anos de adiantamento, e no "paraíso terrestre" que é o Brasil virgem, realizam um primeiro esboço sangrento dessas guerras de religião que vão logo encher de sangue e de vergonha toda a Europa.Outros temas atravessam o livro, como o encontro da civilização e do mundo primitivo. Villegagnon tem em sua equipe dois jovens (um rapaz e uma garota vestida como rapaz) que são encarregados de aprender a língua dos tupis e de servirem de intérpretes para os franceses.Um deles, o rapaz, desgostoso com as violências de seu chefe, continua na tropa dos franceses. Mas a garota, com repugnância diante do comportamento dos "civilizados", fica totalmente nua, se junta aos tupis e sonha com uma inocência, aliás inatingível.O livro de Rufin não é de vanguarda: é sólida literatura de aventuras, mas de alto nível. Nada de gênio literário, mas um belo trabalho e uma leitura apaixonante, certamente devido ao talento de Rufin, mas também devido ao enorme potencial histórico. Seu relato fez da Baía de Guanabara um cenário mais palpitante que qualquer produção de Hollywood.Os franceses, que ignoram até hoje esse episódio, vão aprender muitas coisas: que, tanto ontem como hoje, as religiões se odeiam e são dotadas de horror. Que a França fascinou seus ancestrais do século 16. E, finalmente, que o Brasil tirou seu nome de árvores da cor vermelha. (Tradução de Wanda Caldeira Brant)

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