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Disponível no Globoplay, o documentário 'Framing Britney Spears' explora o assédio midiático e a tutela sobre a Princesa do Pop FX / Reprodução

‘Framing Britney Spears’ só arranha a superfície da prisão em que a Princesa do Pop vive há 13 anos

Documentário disponível no Globoplay explora a tutela que impede uma das artistas mais conhecidas no mundo de ser dona da própria vida

João Ker, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 18h27

Depois de levantar um debate nacional nos Estados Unidos sobre as leis de tutela e reacender o interesse da mídia na Princesa do Pop, o documentário Framing Britney Spears chegou no último sábado, 19, ao catálogo do Globoplay. Em pouco mais de uma hora, o filme narra a ascensão meteórica de uma das artistas mais conhecidas mundialmente, culminando na conservadoria em que ela vive pelos últimos 13 anos e que garante ao seu pai, Jamie Spears, o poder legal de controlar sua vida e suas finanças. 

Produzido pelo The New York Times em parceria com Hulu e FX, o documentário usa imagens de arquivo e entrevistas com pessoas próximas a Britney Spears para analisar como uma das principais estrelas pop dos últimos anos se tornou uma prisioneira de sua própria fama. Ao invés de trilhar o caminho fácil e ater-se ao sucesso profissional que ela alcançou em uma carreira consolidada ao longo dos últimos 23 anos, Framing explora o impacto da mídia e da imprensa na vida pessoal da artista, antes de mergulhar no movimento #FreeBritney.

Em 2021, no mundo pós-Me Too e com a existência de redes sociais ou apenas do bom senso coletivo, é inimaginável que jornalistas e apresentadores de TV perguntem a uma adolescente em rede nacional se ela é virgem ou se seus seios são reais. Porém, como fica claro no filme, esses foram apenas alguns dos muitos absurdos que Britney precisou suportar enquanto crescia sob as lentes da mídia e se tornava uma mulher adulta que explorava a própria sexualidade em músicas, videoclipes e ensaios fotográficos. 

Imagens de Britney perseguida por dezenas de paparazzi, tendo sua capacidade materna questionada em capas de jornais e seu ex-namorado, Justin Timberlake, gabando-se publicamente de ter transado com ela são intercaladas com depoimentos em que a própria estrela se queixa dessas cobranças. Um dos momentos mais impactantes é também aquele em que a artista aparece mais vulnerável, quando, grávida do segundo filho, ela desaba durante uma entrevista e, entre lágrimas, diz que seu maior desejo é ser deixada em paz.  

Esse revisionismo sobre o escrutínio midiático ao qual Britney foi submetida ocupa metade do filme e não chega a ser exatamente uma novidade, exceto na forma com que a diretora Samantha Stark o condena. Mesmo assim, ele estabelece uma dimensão do quanto a figura da artista era lucrativa para tablóides, o quão desumano era o tratamento direcionado a ela e o quanto Britney tentou se desvencilhar dessa perseguição sem sucesso, até ser colocada sob uma tutela permanente. 

Em fevereiro de 2008, após duas internações em clínicas psiquiátricas e uma persona pública em ruínas, o tribunal da Califórnia declarou que Britney era incapaz de cuidar de si mesma e garantiu a Jamie Spears o papel de tutor permanente da filha, mantido até hoje. Na prática, é ele quem decide o que ela pode fazer com o próprio dinheiro e autoriza ou não todos os aspectos de sua vida, desde com quem ela se encontra e aonde vai até se ela pode ter filhos ou se casar. Aos 39 anos e com uma fortuna milionária no banco, a Princesa do Pop precisa pedir ao pai para comprar um café, viajar, dirigir, gravar uma música, receber amigos na sua mansão ou dar uma entrevista.

É ao entrar nesse terreno que Framing Britney Spears realmente decola e, para isso, conta com dois grandes trunfos: as entrevistas com Felicia Culotta, assistente e amiga pessoal da artista desde o início da sua carreira, e Adam Streisand, o advogado que ela tentou contratar em 2008 para defender seus interesses no caso. Ambas as figuras são cruciais para entender o episódio e a cantora, e ao mesmo tempo são pessoas notoriamente reservadas, sem nunca antes terem mencionado o assunto publicamente.

Enquanto Felicia conta pela primeira vez que foi cortada da vida de Britney logo que a tutela começou, Streisand atesta que a estrela tinha apenas uma demanda em relação à conservadoria: que Jamie não fosse o tutor. Em documentos oficiais entregues à corte de Los Angeles e reproduzidos no documentário, Britney afirma ter medo do pai e, mais tarde, pede que seu caso não seja tratado como um "segredo de família". 

Uma peça fundamental dessa história é também a ausência mais sentida em Framing Britney Spears: a empresária Lou M. Taylor, creditada pelo movimento como a grande arquiteta por trás da tutela e uma de suas principais beneficiárias. 

Contratada por Jamie Spears para agenciar a filha, Lou é citada no livro Through The Storm: Uma verdadeira história da fama e da família no mundo do tablóide, lançado por Lynne Spears em 2008. Nele, a mãe de Britney diz que a ideia da tutela partiu da empresária, após ela ter convencido o pai da cantora que "Deus estava pedindo" para que ele tomasse o controle da situação. 

Talvez a maior vitória do filme seja a de chancelar o movimento #FreeBritney como mais do que mera teoria da conspiração e tratá-lo como uma defesa legitimada pela própria Princesa do Pop, a qual parece ter seus direitos civis violados há mais tempo do que o público sabe. O interesse no tema também aumentou: a Netflix e a BBC já anunciaram oficialmente a produção dos seus próprios documentários e alguns deputados dos EUA já começaram a discutir se não é hora de rever as leis sobre tutela no país. 

Mesmo assim, muitas perguntas, episódios e personagens continuam inexplorados e, para que essa história seja realmente contada de forma completa, continua faltando uma voz importante: a da protagonista.

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Britney Spears, uma estrela sem voz nem liberdade há mais de uma década

Princesa do Pop se opõe à tutela sob a qual vive desde 2008, quando a medida foi instaurada

João Ker, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 18h32

Há 13 anos vivendo sob uma tutela que a impede de ter as mesmas liberdades que outras pessoas adultas da sua idade, Britney Spears, de 39 anos, tem sua conservadoria investigada no documentário Framing Britney Spears, disponível no Globoplay. Mas apesar de ser um bom ponto de partida para quem não está familiarizado com o caso, o filme dirigido por Samantha Stark e produzido pelo The New York Times ainda deixa de fora personagens e perguntas centrais para entender a extensão do problema.

A tutela de Britney começou em 2008, após uma série de episódios erráticos esmiuçados na mídia, que culminaram com a artista perdendo a guarda integral e o direito de se aproximar dos dois filhos, Sean e Jayden, hoje com 15 e 14 anos. Garantida pelo tribunal de Los Angeles, a medida é raramente concedida a pessoas com a idade da artista, então com 26 anos, e tem como objetivo proteger uma pessoa “incapaz” de ser explorada. 

O conservador apontado para cuidar de Britney foi o pai Jamie Spears, e desde que a sua tutela foi instaurada, a cantora ganhou novamente o contato com as crianças e o respeito da imprensa, mas para isso abriu mão de sua liberdade. O arranjo, que inicialmente foi pedido em caráter temporário, se tornou permanente poucos meses depois, e hoje é combatido nos tribunais pela própria artista.

A única vez em que Britney falou publicamente sobre a conservadoria foi no documentário For The Record, lançado meses após ela ter começado. "Se eu não estivesse sob as amarras que estou agora, com pessoas me analisando o tempo todo, eu me sentiria mais livre", disse, entre lágrimas. A última tentativa de mencionar o assunto foi em 2016, enquanto promovia o disco Glory no programa de Jonathan Ross, na Inglaterra, mas o segmento inteiro ficou de fora da versão final exibida na TV. O público só soube que o tema foi abordado porque uma pessoa presente na plateia relatou previamente o episódio nas redes sociais. 

Essa proibição de sequer mencionar a tutela é uma das principais preocupações por trás do movimento #FreeBritney, criado por fãs em 2019. Na época, a artista cancelou uma nova residência de shows em Las Vegas para a qual já estava ensaiando há semanas e, por dois meses, não foi vista em nenhum lugar. Mais tarde, sua equipe publicou um comunicado dizendo que ela havia se internado voluntariamente para cuidar da própria saúde mental.

Uma ligação anônima feita para duas amigas que mantêm um podcast dedicado à cantora afirmou o que muitos fãs suspeitavam: Britney foi internada contra a sua vontade, muito antes do que foi alegado pela sua equipe. A internação teria sido uma punição motivada pela recusa da cantora em tomar os remédios que o pai indicava, afirmava a ligação, feita por alguém que se identificava como ex-advogado do time da artista e que, mais tarde, descobriu-se ser um dos poucos amigos que ela ainda tem autorização de ver. 

Desde então, o #FreeBritney cresceu, chamou a atenção de advogados e defensores públicos dos EUA, que se uniram aos admirados da Princesa do Pop para esmiuçar documentos oficiais da tutela, organizar protestos presenciais em frente ao tribunal e alertar a mídia sobre o que parece ser um caso grave de violação dos direitos civis de uma das artistas mais ricas e conhecidas mundialmente.

Após o episódio da internação, a própria Britney tem agido ativamente para se livrar da conservadoria e, principalmente, do seu pai como tutor permanente. O ponto de ruptura nessa mudança de atitude em alguém que por uma década não havia reclamado pública ou judicialmente sobre a situação foi uma briga entre Jamie e o primogênito da cantora, Sean, em setembro daquele mesmo ano. 

A discussão rendeu uma ordem de restrição do rapaz e do irmão contra o avô e, no ano passado, ele deixou de ser o único responsável pelas finanças da cantora, dividindo a função com um banco de investimentos apontado pelo tribunal. Impossibilitada de se manifestar publicamente sobre o assunto, Britney tem usado o advogado apontado pela corte da Califórnia para se comunicar com fãs e imprensa através de documentos oficiais entregues ao tribunal.

Neles, a cantora já admitiu ter "medo" do pai, com o qual ela diz manter uma relação "tóxica". Também agradeceu aos fãs pelo apoio, afirmou que não deseja esconder a tutela como um "segredo de família" e que se recusa a trabalhar enquanto Jamie Spears for o responsável por suas finanças, das quais ele subtrai um salário anual de U$ 130 mil, de acordo com documentos de 2016. 

Jamie, por sua vez, diz que seu único objetivo é ver a cantora bem e que fez o que qualquer pai preocupado faria. Desde o lançamento de Framing Britney Spears, entretanto, essas alegações têm se mostrado mais difíceis de sustentar.

Em uma rara entrevista concedida no final do ano passado, o irmão mais velho da cantora, Bryan Spears, admitiu que ela sempre quis sair da tutela. E, apesar de ter conseguido algumas pequenas vitórias nos últimos meses, sua principal demanda de remover integralmente o pai como conservador ainda não foi atendida.

Nos quatro discos de estúdio, três turnês mundiais, dezenas de clipes e ensaios fotográficos que fez desde que está colocada sob a tutela, Britney tem aludido à ideia de que é uma prisioneira, aparecendo frequentemente em gaiolas ou com algemas. Músicas compostas e lançadas por ela também falam sobre uma alienação do mundo exterior e, de acordo com o fotógrafo David LaChapelle, a única vontade que ela tinha para o videoclipe de ...Make Me era ser filmada dentro de uma jaula.

Em uma das cenas centrais de For The Record, Britney começa a chorar quando fala, publicamente pela última vez, sobre a tutela: "Mesmo quando você vai para a cadeia, sabe, existe a hora em que você vai sair. Mas nessa situação, não tem fim. Eu estou tendo que pagar o preço por um tempo muito longo". 

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