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Fragmentos de um amor pandêmico

Quando deixei de sentir o cheiro dela no meu travesseiro, achei que o luto pela separação havia terminado. Errei

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

08 de março de 2021 | 03h00

Quando deixei de sentir o cheiro dela no meu travesseiro, achei que o luto pela separação havia terminado.

Errei. 

Era covid.

*

Essa memória sem cheiro é mais cruel. Tenho uma manhã de cão farejador. Procuro vestígios do seu perfume pelos cantos da casa. Cheiro o vão do sofá, a estante de livros, a gaveta de meias, os talheres que sonham no escorredor da pia, a tampa do vaso sanitário... Nada.

*

Uma quarentena de você. Não mando mensagens, não entro no seu Instagram, não ouço a nossa música, não peço o seu japonês preferido, não coloco meus pés na rua para seguir suas pistas.

*

Usei minha N95 para me proteger de você. Me proteger dos seus poderes, da sua capacidade de ler nos meus lábios as mentiras mais tristes. 

Para o meu azar, você também é telepata. 

*

Agora, você tem a desculpa perfeita para não me ver. 

A gente ainda estava junto quando a pandemia começou. Tínhamos planos para quando “essa loucura acabasse”. Primeiro a gente achou que acabaria em 15 dias, depois em um mês, três meses no máximo, seis meses e pronto... Não deixa de ser irônico perceber que “essa loucura” acabou com a gente primeiro. 

*

Eu sei que perdi a cabeça com a atendente da companhia aérea. Falei coisas horríveis pelo telefone. Sentada ao meu lado, você ouviu tudo. E acho que foi neste dia que você deixou de me amar.

*

Consegui a devolução do dinheiro da passagem. Me manda seu Pix que eu faço o depósito.

*

Ainda sei o número do seu CPF de cabeça.

Acho que gosto de você.

(Sei poucas coisas de cabeça).

Acordo no meio da noite pensando em você, em você, na covid, em você, na covid, na covid, em você, na covid.

*

Queria te perguntar uma coisa: você está saindo com alguém?

*

Conheceu alguém que vale o risco?

*

Tantas perdas, tanta gente morrendo, que eu tenho até vergonha de sofrer por você. 

*

Sou um burguês apequenado.

*

Você está bem? E seus pais? Sua avó já tomou vacina? 

*

Hoje vi um homem surtar no metrô. No horário de pico, ele deu um grito e tirou a máscara no meio da plataforma. Não entendi o que ele dizia, mas achei triste. Não sei porque estou contando isso pra você. 

*

E se a gente marcasse um café? E se a gente ficasse se olhando de uma distancia segura? E se a gente ficasse se olhando até descobrir (e entender) que nunca tivemos nenhuma chance? 

*

E se eu pudesse te esquecer hoje? 

*

É negacionismo que chama, não é? 

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