Fragmentos de Leopold Bloom

DIRCE WALTRICK DO AMARANTE

DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É PROFESSORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA, COORGANIZOU, COTRADUZIU DE SANTOS, SÁBIOS (ILUMINURAS), COLETÂNEA DE TEXTOS SOBRE ESTÉTICA, POLÍTICA DE JAMES JOYCE, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2012 | 03h09

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lysses é um compêndio de pensamentos e sensações nem sempre ordenados de forma coerente, importa muito mais a associação de ideias, que parece às vezes aludir a uma página de jornal com anúncios: "O senhor Bloom parou na esquina, olhos vagando sobre cartazes multicoloridos. Gengibirra de Cantrell e Cochrane (Aromática). Liquidação de verão da Clery's. Não, está passando direto. Olha só. Leah hoje à noite: senhora Bandman Palmer. Ia gostar de ver ela nessa peça de novo" (tradução de Caetano Galindo, como nos demais trechos que cito).

As cenas do romance são construídas em torno de três personagens principais: Leopold Bloom, sua mulher Marion (Molly) Bloom e o jovem Stephen Dedalus. O livro começa com Stephen e termina com Molly, no entanto, o protagonista é Leopold, um agente publicitário modesto, um pequeno judeu que, segundo o escritor italiano Italo Svevo, nos faz rir e desperta nossa compaixão, muito mais do que o douto e arrogante Stephen. Bloom, que perdeu o filho, pensa reencontrá-lo em Stephen; ama a esposa Molly, mulher vulgar, pouco intelectual e que o trai, mas é "a musa vocal. A prima favorita de Dublin".

Segundo Vladimir Nabokov, "ao compor a figura de Bloom, a ideia de Joyce é colocar entre os endêmicos irlandeses da sua Dublin natal alguém que seja simultaneamente irlandês e exilado, e ovelha negra, como ele, Joyce". Bloom é um intruso na Irlanda, tanto quanto o autor o foi, dentro e fora de seu país.

Não se pode entender o protagonista sem mencionar Dedalus. Leopold tem uma cultura mediana, embora seja leitor de jornais, folhetins baratos e romances. Stephen é um intelectual e um jovem professor, erudito e poeta.

Após longas conversas, Stephen e Bloom descobrem que havia um único ponto em que suas opiniões eram "idênticas e negativas. A influência da luz a gás ou elétrica no crescimento de árvores para-heliotrópicas circunstantes".

A propósito dos dois, Italo Svevo, que foi amigo de Joyce, opina que, para ambos "o sonho é mais forte que a realidade. Apesar de que, para Dedalus, quando não se trata de uma obsessão, é uma intensa atividade filosófica ou poética. Para Leopold, o sonho é um repouso que ele procura e ama, ao qual se abandona tal como no sono". Stephen vê o sonho como "um ornamento da vida que tem e que despreza, pela linguagem apurada e pela cor de suas imagens, em Bloom o sonho substitui a vida que ele deseja e que nunca terá".

Leopold não muda, leva sua vidinha ordinária, uma metáfora da própria publicidade. "- Porque você sabe, o Bloom falou, pra um anúncio tem que ter repetição. É o grande segredo." Contudo, o "herói" Leopold Bloom derrota seu rival, o amante de Molly, que pensa no marido no seu longo monólogo interior.

As críticos tendem a considerar Bloom um cidadão normal, mas, afirma Nabokov, "não é verdade que a imaginação de um cidadão normal se recrie constantemente em pormenores fisiológicos". No seu aspecto sexual, Bloom está no "limite da sua própria demência".

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