Fragmentos da vida de um tradutor

No fundo tudo é tradução, neste mundo, conclui o narrador logo nas primeiras páginas de Três Traidores e Uns Outros, novo romance do gaúcho Marcelo Backes.

Raquel Cozer, raquel.cozer@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

Não é bem uma conclusão precoce. Àquela altura da narrativa, Matias Nimrod, o personagem que fala ao leitor, é um tradutor em fim de carreira que voltou à terra natal por absoluta falta de opção. Nos capítulos seguintes, aparecerá em quatro momentos bem diversos, cada vez mais jovem. E em todos eles seu ofício se confundirá com sua vida e seus amores - assim como a ficção se confunde com a história do autor, ele mesmo, aos 37 anos, um dos mais respeitados tradutores do alemão no País.

Em determinado ponto, por exemplo, Nimrod brinda o leitor com pensamentos extraídos de um livro que está traduzindo, A Menina Sem Qualidades, de Juli Zeh, vertido na vida real por Backes. "É claro que o personagem tem muito a ver comigo. Uso a tática de confundir por dizer demais, já que, no mundo de hoje, você não consegue confundir por dizer de menos", explica o autor. Mas Nimrod também não tem nada a ver com ele, esclarece em seguida, "é um sujeito duro, ressecado por dentro."

No recuo cronológico, o personagem aparece em um encontro de tradutores na Europa e mais adiante no Rio, onde viu seu casamento terminar e onde chegou, em plena juventude, para tentar carreira - quando vive a bizarra experiência de traduzir simultaneamente as sessões de análise de um empresário alemão, tornando-se mediador de um momento em que toda e qualquer mediação deveria ser anulada. Nos quatro episódios, fracassa de alguma forma, algo que remete à impotência na tentativa ser fiel a um texto numa tradução. Os traidores do título são, afinal, os tradutores.

"Dá para arrancar das várias narrativas do romance uma espécie de teoria Marcelo Backes da tradução. Essa dificuldade, esse sofrimento que significa arrancar a pele de alguém para vesti-los na roupa de uma outra língua. É como dançar acorrentado a sensação que você tem quando está traduzindo", afirma o gaúcho. Suas angústias tradutórias vão parar na mente do narrador; Nimrod também não se conforma com a substituição do "tu" por "você", inevitável para as editoras brasileiras; também sofre ao ver revisores alterarem o que traduziu à imagem e semelhança do texto original até retirarem qualquer traço que possa ser avaliado como erro gramatical.

Em sua segunda incursão na narrativa longa - a primeira, maisquememória, com um narrador que percorre a Europa, saiu em 2007 também pela editora Record -, Backes optou por um texto fragmentado, cujos capítulos até podem ser lidos isoladamente, embora forneçam uns aos outros informações que ajudam a construir o todo. "Segui uma velha tese a respeito do romance e que acho que quem definiu muito bem pela primeira vez foi o Alfred Döblin, autor do Alexanderplatz: um romance tem que ser como uma minhoca. Se você cortar em dez partes, todas elas têm de viver."/ R.C.

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