Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Fracassos retumbantes

Quase todos os Estados brasileiros têm feriados para celebrar revoltas fracassadas, mas, claro, com 'vitória moral'

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

31 de julho de 2019 | 02h00

A frase “o fracasso lhe subiu à cabeça” é extraordinária. Virou até letra de música. É um ataque venenoso lançado a muitos políticos e administradores. Contém certa injustiça. Fracassos podem ser extraordinários na memória. Dédalo era arquiteto genial e prudente.

Seu filho, Ícaro, era impulsivo e nada acrescentou à técnica do pai. Pelo contrário, o jovem ignorou os conselhos do sábio engenhoso e aproximou as frágeis asas de cera do carro do sol. Resultado da escolha? Até hoje, seu túmulo aquático se inscreve nos atlas como o Mar Icário. Trata-se de um fracasso que nunca subiu à cabeça do infeliz. O referido local da tragédia é uma parte do Mar Egeu. Esse é um outro nome a registrar o erro estratégico. O velho Egeu se matou por engano, supondo que seu filho Teseu estava morto, quando era simples falha de comunicação. 

Os mapas parecem um itinerário de equívocos gloriosos. O Estreito de Magalhães ostenta o nome glorioso do português que fez a primeira viagem ao redor do nosso globo. Há 500 anos, pasmem senhoras e espantem-se senhores, alguns ignorantes supunham a Terra plana! Inacreditável a imbecilidade daquela época. Tergiverso. Fernão de Magalhães batizou o belo e complexo trecho austral no nosso continente. Todavia, a primeira viagem ao redor do mundo não plano não foi completada pelo lusitano. No futuro arquipélago das Filipinas, habitantes locais foram indiferentes ao solene tom épico da empreitada e flecharam o capitão ousado. A viagem completou-se sem Fernão. 

Volto ao solo. As vitórias napoleônicas estão listadas no Arco do Triunfo, em Paris. No monumento, lemos a batalha de Moscou, evento que resultou em desastre quase absoluto para o corso. O custo dos campos gelados da Rússia nunca foi superado pelo exército francês. A águia imperial morreu por hipotermia. A “vitória” de Moscou é uma derrota monumental do projeto napoleônico. O genial estrategista terminaria a vida prisioneiro em uma ilha longe de tudo, tendo seu império retalhado e todos os princípios revolucionários engolfados pela onda reacionária do Congresso de Viena.

Em 1840, quando os franceses recuperaram seu corpo em Santa Helena, Bonaparte passou um tempo sendo velado sob o Arco do Triunfo de onde, hipoteticamente, seu espírito poderia ler a “vitória gloriosa” que apresentou, como efeito maior, a queda do império e o desfile do czar russo vitorioso em plena Paris. 

Ferdinand de Lesseps passou à história como o construtor do estratégico Canal de Suez. Embalado pelo sucesso daquela via, atreveu-se a empreender o Canal do Panamá. Foi um desastre retumbante que, curiosamente, pouco tisna a reputação do francês. Seria um Napoleão da engenharia: seu Waterloo não nubla sua Austerlitz. O mesmo se pode dizer de Steve Jobs, afastado da própria empresa em meio a crises enormes?

O exército soviético acompanha a mesma sina: semi-humilhado diante da fraca Finlândia e apanhando muito até 1943, será sempre lembrado pela vitória na Segunda Guerra. Para o emblemático Churchill, o fracasso de Galípoli seria compensado na vitória da guerra seguinte. Por quais motivos ocultamos fracassos e destacamos vitórias? Quantas ideias geniais você precisa ter na vida para que seus pensamentos idiotas sejam defenestrados? A Guernica da década de 1930 equilibra os anos menos brilhantes de Picasso no final da vida? Capitalistas que perderam tudo, como o emblemático Barão de Mauá, deixam de ser competentes? São questões importantes na carreira e na vida pessoal de cada um.

Quase todos os Estados brasileiros têm feriados para celebrar revoltas fracassadas, mas, claro, com “vitória moral”. Celebramos Cabanagem, Farroupilha, Sabinada, Balaiada e, curiosamente, o esmagamento da Inconfidência Mineira com multas, degredos e uma execução. A vitória total do governo de D. Maria I é, hoje, feriado nacional... em homenagem aos que não atingiram seus objetivos naquele século.

A única solução para que o sucesso seja extraordinário é o modelo Nelson: morrer em meio a uma imponente vitória. Tinha 47 anos no apogeu da glória, em Trafalgar. O triunfo do almirante do alto de sua coluna na praça em Londres é permanente. Não teve tempo de falhar ou de desgastar a biografia. Exemplo ainda maior de triunfo inatacável? É o caso do nosso bom presidente Tancredo Neves, de longe, o melhor governante que já foi eleito para o cargo do Executivo Federal. Abandonou o mundo em 21 de abril, dia de outro imortal, Tiradentes.

Morrer na glória de uma batalha ou na véspera de ela ser travada parece ser a segurança permanente para que seu nome esteja no Panteão dos Heróis para sempre. Infelizmente, para nós, os vivos, os dias se repetem. O desempenho épico de ontem pode não servir de argumento para amanhã. A falência parece apagar os anos de prosperidade econômica. Eis a discreta beleza de estar vivo. Temos nova chance de acertar todo dia e, claro, de colocar tudo a perder sempre. É preciso manter a esperança, até porque continuamos vivos! 

Tudo o que sabemos sobre:
História do Brasil

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.