Foucault e o islã, mistura explosiva

Três livros sobre o filósofo francês, morto em 1984, são lançados simultaneamente; dois deles abordam o apoio dado pelo pensador à revolução iraniana liderada pelo aiatolá Khomeini em 1979

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2011 | 00h00

Pouco antes de morrer, o filósofo francês Michel Foucault (1926- 1984) escreveu um artigo em que defendeu ser perigoso confundir humanismo com Iluminismo. Segundo o pensador, a temática humanista seria "muito inconsistente para servir de eixo à reflexão". A frase provocou arrepios na feminista iraniana Janet Afary e no professor de sociologia americano Kevin B. Anderson, autores do livro Foucault e a Revolução Iraniana, que será lançado no dia 10 pela Editora É (o livro já se encontra em pré-venda na Livraria Cultura). Eles acreditam que "o resultado trágico da revolução iraniana deflagrada por Khomeini formou parte do pano de fundo desse derradeiro ensaio". E foram atrás de todos os artigos escritos por Foucault sobre o conflito que levou o aiatolá Ruhollah Khomeini (1902-1989) ao poder, estabelecendo uma teocracia islâmica no Irã, em 1979.

Parece paradoxal que um pensador dedicado à causa libertária tenha apoiado, num primeiro momento, os fundamentalistas religiosos que derrubaram a monarquia autocrática pró-ocidental do xá Reza Pahlevi (1919-1980), discordando de seus pares, que viam na revolução islâmica a representação do confronto entre o mundo religioso arcaico e a modernidade laica. Em sua defesa, o historiador Paul Veyne, amigo e colaborador do filósofo, afirma que "esse pretenso esquerdista" - nem freudiano, nem marxista, segundo ele - "foi tocado pelo heroísmo das multidões iranianas diante da polícia e do Exército do xá". Foi por isso, crê Veyne, que Foucault "ultrapassou a neutralidade e tomou o partido dos revoltados, sem esperar para ver se o islamismo não daria razões para a indignação dignas de suscitar revoltas pontuais". Tal conclusão de Veyne se encontra em Foucault: Seu Pensamento, Sua Pessoa, lançado agora pela Civilização Brasileira.

Alimentando a polêmica e as homenagens aos 85 anos do nascimento do filósofo (e 50 da publicação do fundamental História da Loucura), chega às livrarias, no dia 25, outro estudo sobre ele, pela editora Zahar, Como Ler Foucault. O título revela que o objetivo da autora, Johanna Oksala, pesquisadora da Universidade de Helsinque, na Finlândia, é didático e bem diferente do de Veyne, que faz um esforço intelectual para traduzir o discurso de Foucault e ver em que ponto o nietzschiano filósofo aproxima-se de Heidegger - simpatizante e colaborador de outro regime obtuso, o nazista, nunca é demais lembrar. Por trás da obra filosófica de ambos, segundo o historiador francês, "esconde-se um não dito truístico e esmagador: o passado antigo e recente da humanidade não passa de um vasto cemitério de grandes verdades mortas".

A estrutura dos três livros é semelhante: os estudiosos partem para um face a face com as ideias do filósofo. Em cinco capítulos de Foucault e a Revolução Iraniana, seus autores discutem os paradoxos da filosofia foucaultiana, a sedução exercida pelo xiismo sobre o filósofo, suas controvérsias com membros da comunidade iraniana, a vista grossa que fez para os direitos das mulheres submetidas compulsoriamente ao véu e sua relativa ignorância sobre a cultura islâmica. Segundo os autores do livro, ele apontava as semelhanças entre o Corão e o Levítico sem lembrar que o capítulo 20 do livro bíblico determina a pena de morte para adúlteros e homossexuais, o que condenaria o próprio Foucault. Em 1978, quando visitou o Irã como correspondente do jornal Corriere della Sera, ele parecia acreditar que o islamismo iraniano aceitaria melhor a homossexualidade que o Ocidente moderno, segundo os autores do livro. Eles tiveram um testemunho dessa ingenuidade por meio de um depoimento do sociólogo Ehsan Naraghi, colega de Foucault no Collège de France, que ficou espantado com a ignorância do filósofo sobre o mundo muçulmano. Em tempo: Naraghi foi preso durante a revolução islâmica e escreveu um livro sobre o assunto.

Por outro lado, Foucault foi um pensador crítico das instituições sociais - em particular a psiquiatria -, que propôs um novo tratamento para os portadores de doenças mentais, abominando o confinamento e mostrando as semelhanças entre asilos, prisões, quartéis e escolas. Paul Veyne, em seu livro, afirma que ele não foi nem estruturalista, nem relativista e tampouco historicista. Foi, antes, um pensador "cético". Veyne repete inúmeras vezes o adjetivo, sem, no entanto, admitir que Foucault tenha sido um niilista. Quando História da Loucura foi publicado, há meio século, diz, alguns historiadores "não viram inicialmente o alcance do livro", embora o filósofo não fosse "tão marginalizado quanto queria crer". Philippe Ariès adorava seus livros, garante.

Foucault, segundo Veyne, autor do primeiro volume da coleção História da Vida Privada, seria igualmente tolerante com a obra alheia. Ele jamais condenou "a mais absurda das doutrinas", acentua, lembrando como o filósofo falava com prazer e simpatia de Santo Agostinho, embora "duvidasse de toda verdade demasiado geral e de todas as grandes verdades intemporais". Poderia alguém assim cético - mas não niilista - apontar algum caminho para a humanidade? Sim, responde o historiador, "porque seu ceticismo não duvida de tudo por princípio".

Um dado novo no livro de Veyne é a lembrança do nome de Wittgenstein para fazer par com Foucault - ambos acreditariam apenas em singularidades. Ele não explora essas semelhanças, mas mostra como Foucault considerava a "linguagem" dos animais irracionais, ao falar da inteligência de um gato que visitava os apartamentos do número 285 da rua de Vaugirard, em Paris, onde morava o filósofo. "Ele entende tudo", dizia o pensador ao historiador a propósito do felino. Para um empirista como Foucault, até um animal errático era capaz de compreender o que homem se recusa a engolir, ou seja, "que o sujeito não é soberano, mas filho do seu tempo". Foucault, define Veyne, não acredita nem Marx nem em Freud, nem na Revolução nem em Mao e "ria em privado dos bons sentimentos progressistas".

Para o historiador, Foucault viu na revolução iraniana a luta da libertação de um povo, a despeito de ter ouvido dele uma frase bombástica sobre Khomeini: "Ele me falou de seu programa de governo: se tomasse o poder, seria de uma idiotice de fazer chorar". Disse isso "erguendo piedosamente os olhos para o céu". O que esse gesto significou? Foucault desdenhava do aiatolá ou seria mais uma vítima de seu carisma? Os autores de Foucault e a Revolução Iraniana sugerem que a experiência do filósofo no Irã representou uma "guinada em seus escritos da década de 1980", fascinado que ficou pela apropriação dos mitos xiitas de martírio e rituais de penitência dos revolucionários. Foucault faria, sim, críticas tardias ao regime islâmico, mas, então, muitas cabeças já haviam rolado. Após maio de 1979, fez silêncio sobre o Irã. Sua busca de alternativas para a laicidade moderna acabara.

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