Fotos de Sugimoto pela primeira vez no Brasil

O artista japonês Hiroshi Sugimoto parece ter levado ao pé da letra o sentido da palavra "fotografia" em sua língua natal: "shashin", em japonês, significa "transformando o real". Entretanto, a transformação que ele opera carrega uma fina ironia, que duvida da representação que o homem faz de si, de sua história, cultura e civilização. Depois de ver as 47 imagens da retrospectiva que a sede paulistana do Centro Cultural Banco do Brasil inaugura neste domingo, o espectador talvez se pergunte: nós e o mundo somos assim mesmo ou será essa mais uma ilusão que nos venderam, assim como em um filme hollywoodiano? Caso volte para casa com essa dúvida estará próximo de uma das questões centrais de Sugimoto, de 54 anos, há quase 30 atuando em Nova York, período em que se deteve em apenas sete temas, que hoje se sobrepõem: dioramas e museus de cera (a partir de 1976), salas de cinema e autocines (1978), mares (1980), 1001 budas de sanju sangendo (1995) e, desde 1997, arquitetura. Com curadoria de Nessia Leonzini, esta é a primeira retrospectiva dos trabalhos de Sugimoto na América Latina. Dioramas teve origem nos museus de história natural norte-americanos, de onde o fotógrafo trouxe insólitas imagens da vida pré-histórica, estranhos animais já extintos e recriações de cenas cotidianas do homem de Neanderthal e Cro-Magnon. Esses museus, impulsionados pelo governo dos EUA a partir dos anos 30, revelam na verdade um olhar retrospectivo sobre a história e a civilização, na visão da ciência do início do século. O curioso é que, nas fotos em preto-e-branco feitas pelo artista, este mundo (que hoje parece saído do antigo seriado Elo Perdido) parece menos artificial que naquelas imutáveis recriações tridimensionais. A câmera de Sugimoto vai aos primórdios para resgatar esses momentos congelados, tirando deles o pó e os reapresentando ao homem do século 21 de maneira sedutora, justamente para colocar em xeque nossas idéias de natureza e cultura, ciência e religião. No limite, questiona a presunção de sermos donos de nosso passado e encerrá-lo em uma narrativa cronológica e - mais inverossímil - que caminha de maneira evolutiva. O fotógrafo desmonta esse sistema e deixa claro que essas imagens, assim como a dos museus de cera Madame Tussaud´s, são a reconstrução de algo que nunca existiu, como a felicidade de lady Di e toda a família real britânica, umas das fotos em exibição. Na obra de Sugimoto, a auto-representação do homem anda de mãos dadas com uma questão de outra ordem, que atravessa cada fotograma na retrospectiva do CCBB: a passagem do tempo e a memória. Uma de suas mais emocionantes séries, Salas de Cinema, mostra platéias vazias, apenas com uma fantasmagórica tela branca a brilhar na quase escuridão. Desse grande retângulo tão familiar a qualquer espectador vem a luz suficiente para vislumbrar o espaço da sala - exuberantes interiores dos anos 20 e 30, que ele encontrou intactos quando errava pelo interior dos EUA, no fim dos 70. Espelhos de Alice - É fundamental descobrir que aquele branco iridiscente da tela foi dado pela projeção de um longa-metragem hollywoodiano, que apenas a câmera de Sugimoto viu, fixada com o obturador aberto por duas ou três horas. São milhares de personagens, figurinos e cenários que se sacrificaram para com seu brilho opaco revelar algo que antes era coadjuvante: a arquitetura da sala, com seus candelabros, balaustradas e motivos decorativos de uma época que se foi junto com aquelas imagens. No lugar de criar uma nova ilusão, Sugimoto revela a estrutura por trás das aparências. O universo que se esconde do outro lado daquelas telas brancas, verdadeiros "espelhos de Alice", parece zombar de nossa ausência. Se essas imagens possuem vida própria e continuam a existir apesar das platéias vazias, o mesmo se dá em Mares, dezenas de fotos do céu e do mar, separados apenas pelo horizonte, sempre desertos, mas eternamente em movimento, desde a criação. Diferentemente do que parece à primeira vista, a arte de Sugimoto tem pouco a ver com os conhecimentos e as crenças do homem, suas conquistas e fracassos através dos séculos. Não se trata de uma homenagem prestada à espécie humana, mas a todas as coisas inanimadas e anônimas que povoam a Terra e que, placidamente, assistem à nossa rápida passagem pelo mundo.Hiroshi Sugimoto - Centro Cultural Banco do Brasil: Rua Álvares Penteado, 112, centro. Tel: 3113-3651. De terça a domingo, das 12h às 18h30. Até 7 de abril.

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