Pedro Garcia/Divulgação
Pedro Garcia/Divulgação

Fotos de anônimos são projetos na internet e em livros

Na versão impressa, a famosa página no Facebook 'Humans of New York' está na lista dos mais vendidos do 'New York Times'

Paula Carvalho, O Estado de S. Paulo

16 de dezembro de 2013 | 21h44

Nas última semanas, um livro de fotografia tem causado barulho em Nova York. Depois de três anos fazendo retratos de pessoas nas ruas da cidade, Brandon Stanton lançou a versão impressa da sua famosa página no Facebook, Humans of New York. São quase 2 milhões de fãs de todo o mundo – e, desde outubro, o livro está entre os mais vendidos na lista do New York Times.

Após perder o emprego no mercado financeiro em Chicago em 2010, Stanton decidiu fazer viagens por cidades americanas tirando fotos do que mais lhe marcava. Em Nova York, se impressionou com as pessoas. Criou um blog em que postava fotos de anônimos, com pequenas confissões que lhe faziam. Ao aceitar que ele tirasse uma foto, cada um era submetido a perguntas pessoais: o que te preocupa hoje? que conselho você daria para alguém?. Atualmente, a página do Facebook é atualizada em média 5 vezes por dia, e o livro, lançado em outubro, traz uma seleção com 400 personagens.

Para o designer Pedro Garcia, o exemplo do sucesso de Stanton mostra que há uma “libertação da mensagem de ter algum meio para existir” , em relação a suportes tradicionais, como jornais e revistas. Ele lança neste mês o seu livro de fotografias, também divulgadas primeiro na internet, sob o codinome Cartiê Bressão. As imagens são todas de iPhone, feitas desde o carnaval de 2011, quando saiu em um bloco vestido de Jorge Tadeu (o personagem de Fábio Júnior na novela Pedra sobre Pedra). Decidiu incorporar o retratista e começou a tirar as fotos “na cara de pau mesmo”.

“No final do desfile, tinham umas crianças fantasiadas tomando picolé num bar. Essa foto me marcou. A partir desse momento, comecei a ficar ligado nessas imagens, e fotografar isso me causava um sentimento que nunca tinha vivido – diferente de estar apenas presenciando uma coisa bonita. Ao capturar, você passa a se apoderar daquele momento. Existe uma cumplicidade do fotógrafo com a cena. Um improviso criativo, uma espécie de jam session com a cidade e seus personagens”, explica.

Pedro passou a encarnar uma versão brasileira de Cartier-Bresson. Na página do Facebook, são quase 30 mil fãs. Além de captar momentos decisivos, a nova nacionalidade lhe dá um senso de humor formidável. Sem saber falar francês, usa o google translate – “mas sem alienar muito” - para criar o dialeto das legendas de Cartiê. Em uma cena com duas senhoras rindo e fumando na varanda de um prédio, descreve: “les commadres fofocquent sur le balcon”.

O espírito de Baudelaire continua, mas com um suporte diferente. Antes, flâneurs produziam (e eram objeto de) poemas e romances ao contemplar a vida urbana. Hoje, na internet, o público é convidado a se engajar nas observações. Na página “La Gente Anda Diciendo”, da Argentina, Tatiana Goldman e Ezequiel Mandelbaum colocaram em prática aquilo que todo mundo já pensou um dia, ao ouvir a conversa de um estranho entrecortada na rua: “quero anotar isso!”. Com mais de 800 mil fãs no Facebook, eles também lançam neste mês um livro, seleção das melhores frases sem contexto ouvidas por usuários que colaboram com a página.

Além dos ditos, o próprio espanhol portenho já dá um toque gracioso aos posts. Há de diálogos ouvidos na rua (“Sempre que se junta com os amigos ele volta triste, como se tivesse chorado.” E respondem: “Seu filho se droga, Marcela”) a indignações pescadas em ônibus: “Não dê uma de cavalheiro me deixando subir primeiro, eu sei que você quer ver minha bunda”. Em outra recente, um vendedor ambulante na Avenida Santa Fé: “Vendo dólares! Como o mundo dá voltas!”.

Para o criador da página, as frases anônimas são quase como um registro de memórias urbano. “Como ninguém pode saber quem falou, as frases são de todos. Algumas são ricas pela narrativa, outras engraçadas... Como o Humans of New York, creio que elas chegam, por um caminho diferente, à alma humana”, diz Ezequiel, em entrevista ao Estado por e-mail.

Cartiê Bressão e La Gente foram financiados pelo público que acompanha as páginas, através de Crowdfunding. Pedro – também um dos sócios do site Queremos, que financia shows com vaquinha de fãs – acredita que páginas surgidas na internet, como a Dilma Bolada, são como as antigas tirinhas ou charges, agora sem o crivo que antes era necessário de editores para serem publicados. “Os livros que estão surgindo a partir do sucesso na internet são mais um reflexo de já não depender de um intermediário. Cedo ou tarde, coisas boas da rede conseguem achar o seu espaço e chegar onde devem chegar”, afirma.

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