'Fotonovela' e os 'super-heróis' da latinidade

Mostra reúne 25 fotógrafos que retratam pobres e ricos em cenários de fantasia, próximos aos das telenovelas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

14 de outubro de 2013 | 20h33

São quase três centenas de fotos, 15 vídeos e uma instalação site specific de 25 artistas, que representam 13 países latino-americanos, mas, curiosamente, não são imagens violentas do tráfico de drogas, de marginais ou miseráveis, pelas quais os povos do Hemisfério Norte reconhecem a fotografia abaixo do Equador. São fotos que retratam o diálogo interclassista pelo viés da ficção, talvez a única possibilidade real de trânsito entre diferentes classes sociais na América Latina, a julgar pela exposição Fotonovela: Sociedade/Classes/Fotografia, no Itaú Cultural. O público poderá, a partir de quinta, 17, conferir a mostra, que tem curadoria do brasileiro Iatã Canabrava e do espanhol Claudi Carreras.

Paralelamente à exposição, os mesmos organizadores promovem o III Fórum Latino-Americano de Fotografia, que reúne fotógrafos, curadores e críticos para discutir temas como o papel e a imagem da foto latino-americana na mídia internacional, coletivos de fotografia, o mercado nas economias emergentes e as narrativas visuais contemporâneas. Entre os convidados estão especialistas como o crítico e curador espanhol Horácio Fernández, a crítica Simonettta Persischetti, do Caderno 2, a célebre fotógrafa mexicana Graciela Iturbide e o antropólogo argentino Néstor García Canclini.

Ao percorrer a mostra, dividida em dois andares, o visitante fica em dúvida se o que vê é cenário de telenovela ou real. A questão do simulacro, justificam os curadores, determinou a seleção dessas imagens que ajudam a entender melhor a estrutura da pirâmide social fincada em diferentes sociedades latinas – de maneira menos ou mais perversa, dependendo do tempo de ingresso da população de baixa renda no mercado consumidor. A definição de uma nova América Latina por meio do olhar dos fotógrafos participantes – grande parte deles oriundos da classe média – tem, portanto, algo de autobiográfico, segundo o curador Iatã Canabrava. Há até mesmo exemplos extremos, como o do autorretrato do uruguaio José Pilone, indeciso diante do guarda-roupa, e da brasileira Helena de Castro, que construiu um álbum de imagens familiares com a ajuda do filho, muitas vezes vestido como um super-herói. “Descobrimos suas fotos por meio do aplicativo Instagram”, revela Canabrava. Ele e o outro curador. Claudi Carreras, foram atraídos nas fotos de Helena pelo “sujeito híbrido” de que fala Canclini, formado na intersecção da cultura popular com a classe média que cobiça o andar superior da pirâmide.

“Ela busca um trabalho mais autoral”, diz o curador, citando outro extremo de trabalho doméstico que investe não na promoção, mas na decadência do núcleo familiar. Trata-se do mexicano Fernando Montiel Klint. Seu álbum familiar é um tanto bizarro: mostra os parentes, imigrantes franceses, exibindo armas de fogo nos salões da casa patriarcal.

“O que é a classe média hoje não é tão importante, mas sim quais são seus modelos e os das classes à margem que hoje têm acesso ao consumo”, diz o curador Claudi Carreras, apontando o original trabalho do argentino Marcos López, que costuma usar modelos estáticos em vídeos, invariavelmente vestidos conforme seus sonhos de ascensão social. Por eles passam skatistas e tipos urbanos da cultura pop, até mesmo o próprio López, que costuma fazer rápidas aparições em seus filmes, como Hitchcock.

A exposição traz imagens insólitas como a de um condomínio fechado registrado pelo coletivo argentino Sub, cooperativa de cinco fotógrafos obrigados a assinar um contrato com seus modelos para mostrar como vive a classe alta no país de Evita. Um vídeo da panamenha Donna Conlon, que nasceu nos EUA, desenha um labirinto de cordões de isolamento para representar os americanos no canal do Panamá, incapazes de interagir com a comunidade local. “Há, porém, o outro lado, o dos latinos que cruzam a fronteira para ‘contaminar’ culturalmente os EUA, caso da mexicana Dulce Pinzón, que vive em Nova York e fotografa imigrantes vestidos de super-heróis”, observa Carreras.

Os exemplos mais radicais de choque cultural, porém, estão nas fotos dos peruanos. O coletivo Lima Fotolibre, formado por fotógrafos da periferia urbana da capital peruana, traça um painel sociológico por meio do registro visual dos bairros onde moram seus integrantes, destacando-se a a imagem de uma favela vista do interior de um shopping vizinho. O peruano Roberto Huaracaya reforça o contraste entre emergentes e os pobres de Lima numa impressionante paisagem praiana onde milionários e subproletários urbanos são separados apenas por um pier, signo incômodo do apartheid social no Peru.

FOTONOVELA: SOCIEDADE/CLASSES/FOTOGRAFIA

Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, 2168-1776. 3ª a 6ª, 9h/ 20h; sáb, e dom., 11h/ 20h. Grátis. Até 22/12.

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