Fotojornalista lança '68 Destinos: Passeata dos Cem Mil'

Livro de Evandro Teixeira sintetiza em imagens o sentimento de uma época de transformação

Simonetta Persichetti, especial para o Estado,

19 de maio de 2008 | 17h12

Uma fotografia não publicada na época, e resgatada dos arquivos do seu autor 15 anos depois, transformou-se em uma das imagens-símbolo de 1968. Esse registro feito pelo fotojornalista Evandro Teixeira em junho de 1968, na Cinelândia, no Rio, para o Jornal do Brasil, inspirou o livro 68 Destinos: Passeata dos Cem Mil, que será lançado nesta terça-feira, 20. Não era a primeira vez que Teixeira cobria uma pauta desse tipo. Há 4 anos decidira utilizar sua câmera como uma forma de relatar o que estava acontecendo naquele momento no Brasil: "Acredito no poder da fotografia de transformar o mundo, criar uma consciência", nos conta ele por telefone. Evandro Teixeira estreou no jornalismo carioca vindo da Bahia, em 1958: "Comecei no Diário da Noite em 1958, na época do jornalismo romântico", lembra. E de lá para cá, nesses 50 anos de profissão, a maior parte deles no JB, foram inúmeros os acontecimentos políticos brasileiros que ele acompanhou. "Isso quando existia um jornalismo investigativo, no qual repórter e fotógrafo corriam atrás da notícia." Veja também:Especial sobre Maio de 1968 Mas naquele dia de junho, ele estava incumbido de acompanhar Vladimir Palmeira, então presidente da UME, na passeata. Havia boatos de que Palmeira seria preso e de que teria mais um embate violento com a polícia, como outros que ele já havia fotografado. O AI-5 ainda não tinha sido decretado e, embora os momentos já fossem bem complicados, a passeata foi tranqüila. "Esperamos alguma violência, mas foi bem calmo. Acompanhei o Vladimir o dia todo e não aconteceu nada." A foto da marcha que se tornou um símbolo foi feita justamente neste dia. Vladimir discursava e Teixeira fotografou a multidão que o ouvia. Nada de mais, uma imagem bastante usual e comum nesse tipo de cobertura. Olhando o material feito por ele naquela época encontramos imagens muito mais marcantes, como a vista área da cavalaria perseguindo estudantes, carros incendiados ou do manifestante caído apanhando dos policiais. A imagem da passeata foi para a gaveta.  Anos mais tarde, em 1983, ele resolveu publicar um livro sobre seu trabalho no jornalismo. Os designers que chamou para ajudá-lo ao verem a foto se encontram na imagem. E uma surpresa: "Agora casados, eles não se conheciam na época e se deram conta que havia participado do mesmo evento anos antes", relata Teixeira. Foi assim que nasceu o projeto do livro 68 Destinos - Passeata dos Cem Mil. Teve início, então, a busca de pessoas que haviam estado na Cinelândia para saber o que havia acontecido com suas vidas e como aquele ano as havia afetado. O mais importante do reencontro dessas pessoas, porém, foi a reflexão sobre 1968 que, para muitos, "ainda não terminou" e outros preferem esquecer. A foto de Teixeira sintetiza bem o sentimento de uma época de profundas e dolorosas transformações em várias partes do mundo. O rosto dos manifestantes espelha um momento da história do País. Fase esta que nosso fotojornalismo ajudou a construir em imagens, quando a foto no jornal não era mera ilustração, mas informação, voz. "Não era como o jornalismo de hoje, que é pautado pela pressa e falta de profundidade." Imagens que vistas agora com a distância do tempo lhe dão a certeza de ter feito a escolha certa em relação à carreira: "O jornalismo me deu o mundo!"   68 Destinos: Passeata dos 100 mil. De Evandro Teixeira. Editora Textual. 120 págs. R$ 98. Livraria Saraiva - Shop. Paulista. R. 13 de Maio, 1.947, 3171-3050. Terça, 20, 19 h

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