Fotógrafo revela suas impressões da era Mao

Li Zhensheng escondeu durante 20 anos negativos das atrocidades cometidas em nome da Revolução Cultural

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2013 | 02h17

Durante a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung (1966-1976), o fotógrafo chinês Li Zhengsheng, que então trabalhava como fotojornalista usando a braçadeira da Guarda Vermelha, escondeu 30 mil negativos numa fenda aberta em seu apartamento. Conservados por 20 anos sob o chão, graças ao tempo seco da cidade de Harbin, onde morava o fotógrafo, eles revelam a história de um período de terror, em que inimigos do regime maoista e da Revolução eram humilhados em público ou sumariamente eliminados. Li Zhengsheng está em São Paulo e vai participar, hoje, às 19h30, na Livraria Cultura, de um debate com a jornalista Dorrit Harazim, autora de um texto sobre ele no quarto número da revista Zum. As senhas para o debate devem ser retiradas a partir das 9 horas, na loja do Instituto Moreira Salles do Conjunto Nacional.

Li Zhengsheng, hoje com 73 anos, é um dos principais convidados do festival Paraty em Foco (de quarta a domingo). Ele falará sobre seu trabalho no dia 21, às 15 horas, contando como passou a guardar negativos que poderiam ser considerados contrarrevolucionários pelo regime maoista. São imagens que chocam pelo ódio estampado nos rostos dos algozes dos "inimigos" da Revolução, uma delas exibindo o governador da província de Heilongjiang, Li Fanwu, com a cabeça raspada pelos soldados da Guarda Vermelha, em setembro de 1966.

O próprio fotógrafo que, jovem, apoiou a Revolução Cultural de Mao, tornou-se crítico em relação ao regime, ao fotografar a execução de oito condenados com tiros na cabeça, em 1968, dois deles acusados de contrarrevolucionários. Li fotografou em close seus rostos e decidiu, desde então, conservar esses negativos como testemunho das atrocidades cometidas em nome de uma ideologia da qual acabaria por ser uma das vítimas - ele foi mandado para um campo de "reeducação" para corrigir seus hábitos "burgueses". Os envelopes pardos com os negativos proibidos que guardava na redação do jornal para o qual trabalhava só sobreviveram porque Li os levou para casa, escondendo-os na fenda que abriu no chão do apartamento, um cubículo de 12 metros quadrados.

Há dez anos, Li Zhengsheng vive uma rotina mais confortável como professor de fotografia na Universidade de Pequim, convidado para dar aulas em universidades ocidentais, depois que o curador Robert Pledge descobriu seu trabalho, exposto pela primeira vez na China em 1988. Em 2003, ele publicou o livro Soldado Vermelho da Imprensa (Red-Colors News Soldier, Phaidon Press, 316 páginas, US$ 26) com o arquivo secreto do fotógrafo.

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