Fotógrafo português retrata as máscaras do cotidiano

Muitas vezes, na correria do dia-a-dia, esquecemos de olhar para nós mesmos. Ou, quando o fazemos, talvez por falta de hábito, talvez por falta de atenção já não nos reconhecemos mais. Estamos escondidos atrás da fantasia de executivos, trabalhadores, médicos, de pessoas normais. São questões como essas que o fotógrafo português Jorge Molder tem perseguido durante sua carreira. Para responder a elas, o artista dedica-se ao tema da auto-representação, partindo de si mesmo para encontrar um personagem externo. "Não caracterizo minhas fotos como ´auto-retrato´, pois também não me reconheço nelas. Quando fotografo, é um outro personagem", conta ele, que mostra a mais nova etapa deste trabalho, desenvolvido desde a década de 80, a partir desta semana em São Paulo.Há sete anos sem expor na cidade, ele espera mais uma vez ver suas idéias compreendidas pelo público paulistano. "Venho a São Paulo com certa regularidade e me agrada muito que o público daqui tenha aproximação com meu trabalho", conta. Atual diretor do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, Molder divide suas novas criações em duas exposições: Pequeno Mundo, em cartaz na Marília Razuk Galeria de Arte, e Curta-Metragem e A Linha do Tempo, em cartaz no Gabinete de Arte Raquel Arnaud.Praticamente inédita, O Pequeno Mundo traz de novo nas fotos em preto-e-branco o personagem do executivo de paletó perplexo diante do mundo e de sua própria imagem. Na seqüência de fotos quase cinematográfica, Molder é, e ao mesmo tempo retrata, esse homem que se depara, entra e começa a vasculhar um amplo e velho escritório. Sobre a série, o fotógrafo explica: "Não é bem um desenho aquilo que vai fazendo, é mais como se quisesse tornar precisa uma indicação urgente da qual poderia depender a sua sobrevivência, ou apenas uma memória." E conclui: "Não deixa transparecer qualquer atitude desesperada, mas antes alguma coisa entre a concentração e o devaneio, percorrendo alguns locais ligados ao seu passado."Um dos artistas mais ativos de seu país, Molder representou Portugal na Bienal de Veneza de 1999, quando apresentou a série Nox, que traz também o fotógrafo como personagem de seus próprios registros. Nesta série, ele retrata o executivo engravatado às voltas como o isolamento, envelhecimento e morte.Em Curta-Metragem, Molder revela instantâneos de um homem em movimento, percorrendo um local abandonado - mais uma vez, este personagem é o próprio fotógrafo. Para ele, este homem ilustra a eterna busca do ser humano. "Nessa busca, sentimos medo, mas estamos sempre procurando repostas para o que vai acontecer, ou, até mesmo para o que já aconteceu", reflete.Já o vídeo A Linha do Tempo traz de volta esse personagem recorrente percorrendo freneticamente os cômodos de uma casa vazia, como se estivesse à procura de algo, mas que encontra apenas estilhaços e livros abandonados. "É um homem que corre atrás de algo perdido e tenta resgatar algo que pode nem ter acontecido. É algo que está mais dentro dele que na casa", adianta. Mas recusa-se a revelar o final. "Ele é surpreendente", garante.Apesar de afirmar que muitas vezes não se reconhece em seus retratos, Molder admite que os novos trabalhos têm muito de autobiográfico. "Não deixam de ser uma relação com eu mesmo. Em ambos há fortes questões pessoais. É um ser com quem mantenho uma relação muito próxima. É a forma como coloco esta relação que me faz aproximar de mim mesmo algumas vezes e me afastar em outras."Jorge Molder - De segunda a sexta, das 10h30 às 19 horas; sábado, das 11 às 14 horas. Marília Razuk Galeria de Arte. Avenida 9 de Julho, 5.719, tel. 3079-0853. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 14 horas. Gabinete de Arte Raquel Arnaud. Rua Arthur de Azevedo, 401, tel. 3083-6322. Até 27/10

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