Fotógrafo passa 500 dias para expor "Brasilidade"

O que é brasilidade? Para o fotógrafo Canário Caliari, brasilidade é sinônimo de criatividade, hospitalidade e gentileza. Caliari, ao lado dos amigos Sérgio Rondelli, geógrafo, e Alex Crusemark, cinegrafista, passou 500 dias percorrendo o País e registrando a brasilidade em mais de 30 mil fotos e 150 horas de vídeo. Esse retrato do povo brasileiro pode ser conferido na exposição Brasilidade, que a Casa Fuji de Fotografia abriga até o dia 14. A mostra, que também conta com palestras, é itinerante e vai percorrer várias cidades do País.O trabalho é fruto do Projeto Brasil 2 Mil: 500 Anos em 500 Dias, realizado de 9 de dezembro de 1998 a 22 de abril de 2000. Durante esse período, eles percorreram mais de 86 mil quilômetros de carro e 20 mil quilômetros de barco, canoa, avião, balão, helicóptero, cavalo e também a pé. "Nosso maior objetivo era registrar o cotidiano do povo brasileiro inserido no ambiente em que vive e, a partir dele, descobrir o Brasil", explica Caliari.Para realizar o trabalho, a equipe contou com a hospitalidade do brasileiro. "Nem todas as cidades tinham pousadas; entramos em muitas casas, sentamos à mesa com muita gente diferente", conta Caliari. "Foi isso que deu um toque mais autêntico, especial, ao nosso registro", completa. "Para se conhecer um país, é preciso conhecer as pessoas, olhá-las nos olhos."A idéia de "dissecar o País" nasceu há mais tempo, em 1993, quando Caliari e Rondelli realizaram a primeira expedição e percorreram a pé os 300 quilômetros de praia entre Itaúnas, no Espírito Santo, e Porto Seguro, na Bahia. "Fizemos essa viagem a trabalho, para registrar as condições de saneamento básico do Espírito Santo; na volta, resolvemos percorrer o litoral do País todo", conta Caliari. Tempos depois, em 1996, literalmente do Oiapoque ao Chuí, a dupla passou 440 dias viajando e registrando o ecossistema, a vida e os costumes das cidades litorâneas do Brasil. "No fim dessa expedição, que mereceu artigos publicados no Jornal da Tarde, pensamos: estamos de frente para o mar, mas de costas para o interior; então, decidimos explorar o território nacional", relembra o fotógrafo.O modo encontrado para dividir a viagem foi o ecossistema. "Percorremos todas as paisagens brasileiras, do serrado à Amazônia, dos pampas ao sertão", conta Rondelli. As 49 fotos que compõem a exposição flagram a natureza do local, a vida e a relação do morador com a paisagem em que vive: os pampas, o cerrado, a caatinga, a Mata Atlântica, o Pantanal, a Floresta Amazônica e o litoral. "É incrível perceber que, apesar de tantos contrastes e povos diferentes, o idioma une o brasileiro", conta Caliari. "Exceção às pequenas diferenças locais, é emocionante ouvir um gaúcho dos pampas falando a mesma língua que o sertanejo da caatinga."Mesmo assim, para Caliari, a descoberta do contraste entre as regiões foi o detalhe mais marcante da viagem. "Depois de passar mais de quatro meses na Amazônia, onde a água é onipresente, resolvemos mudar radicalmente e ir para o sertão", conta o fotógrafo. "Foi então que percebemos o valor que algo tão simples e abundante em uma região tem importância vital em outra; a água é barrenta, sujinha, mas o sertanejo cuida dela com carinho", relembra.É por isso que a água é o tema de seu próximo projeto. "Agora, vamos percorrer as veias do Brasil, ou seja, vamos registrar a vida das cidades às margens dos rios brasileiros", conta Rondelli. "Começaremos pela ´caixa d´água´, o cerrado, e vamos registrando a vida ao longo dos rios que cortam o País", completa Caliari.Dessa vez, o foco estará voltado também para a devastação e a poluição ambiental. "Queremos descobrir onde começa a degradação e como o povo local, que sabe que o rio é importante para sua vida, lida com esses problemas", explica Caliari. Antes dessa nova aventura, que deve começar em agosto, os amigos pretendem lançar um livro relatando as histórias que viveram e um documentário. A expedição Projeto Brasil 2 Mil pode também ser conferida no site www.brasil2mil.com.br.Brasilidade - De segunda a sexta, das 9 às 19 horas; sábado, das 12 às 17 horas. Casa da Fotografia Fuji. Avenida Vereador José Diniz, 3.400, tel. 5091- 4055. Até 14/10. Patrocínio: Banco do Brasil.

Agencia Estado,

28 de setembro de 2000 | 17h52

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