Fotógrafa sérvia Gordana Manic revê os Bálcãs em livro

Refugiada de guerra, ela lança 'Ausente' nesta quinta, um trabalho intimista com imagens escurecidas

Camila Molina , O Estado. S. Paulo

29 Janeiro 2014 | 18h44

 “A fotografia é o desejo de criar um livro impossível, cujas páginas podem ser lidas de tempos em tempos”, escreveu o fotógrafo italiano Luigi Ghirri (1943-1992), que acabou de ter sua obra apresentada em São Paulo na retrospectiva Pensar por Imagens, no Instituto Moreira Salles. Já para a fotógrafa sérvia Gordana Manic, quando deixamos de existir, são as imagens que ficam – como assombrações, afetos, indagação. É o que se vê no livro Ausente, que a artista realizou ao vencer o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia.

A obra, que ficou pronta no fim de 2013, será lançada nesta quinta, 30, às 18h30, no Instituto Figueiredo Ferraz de Ribeirão Preto, com debate reunindo Gordana Manic e o curador Eder Chiodetto, responsável pela coordenação editorial do livro. Ausente é um trabalho intimista – como é recorrente na poética da fotógrafa –, composto pela densidade de quem teve de fugir de uma guerra (dos Bálcãs) – e que, portanto, escolhe fazer uma fotografia velada pelo escurecimento, em preto e branco ou, por vezes, com pouquíssima cor.

É uma história de volta à casa em Novi Sad depois de 14 anos de ausência, de questionamento do próprio olhar e do sentimento de pertencimento. “Tentava amenizar minha constante sensação de desterro e incompletude”, escreve Gordana Manic no pequeno (e tão honesto) texto que está no fim de Ausente. Desde que chegou ao Brasil, em 1999, refugiada da Guerra do Kosovo, a artista – que é formada em matemática e professora da disciplina na Universidade Federal do ABC, em Santo André –, não havia realizado nenhuma fotografia em suas esparsas visitas ao seu país.

Entretanto, não é necessário saber de toda essa história para mergulhar no universo de Ausente. Cada uma das 38 obras do livro – ou cada par de fotografia, já que a edição é engendrada por duplas de imagens em diálogo –, tem a potência de despertar narrativas, sentimentos diversos, ou o imaginário, já que trata de questões tão contemporâneas. Animais – leve cisne branco, pesados porcos de abate –, aparecem nas composições assim como detalhes do interior de uma casa (um tecido pendurado na porta de um armário, sofás solitários, rachaduras no teto de uma sala, um casaco); pedaços de paisagens; imagens de álbuns antigos de família; acessórios de uma mulher (a mãe de Gordana); a radiografia de um pulmão (do pai da fotógrafa, morto). São imagens fragmentadas.

“Não queria especificar o lugar, não queria me prender a nada”, conta Gordana Manic, que também tem suas obras expostas agora na 1ª Bienal Masp-Pirelli de Fotografia, em cartaz no Museu Oscar Niemeyer de Curitiba, e na Central Galeria.

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