André Lessa/ AE
André Lessa/ AE

Fotógrafa Gordana Manic expõe obra sobre isolamento no MIS

Artista e matemática sérvia vem conquistando espaço no Brasil com temática, presente em 'Réquiem'

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2012 | 03h07

 

Quando a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) atacou a Sérvia em março de 1999, Gordana Manic teve certeza de que queria fugir de seu país. "Passei um mês na Hungria, tentando arrumar o visto para algum lugar da Europa, mas foi impossível por causa da situação política", conta. Natural da cidade de Novi Sad, formada em matemática, professora em uma universidade local e funcionária de um banco, Gordana (pronuncia-se Górdana) Manic e seus amigos sérvios não vislumbravam, naquela época, algum futuro nos Bálcãs, em plena crise do governo de Slobodan Milosevic. O Brasil não era, de longe, sua primeira opção de destino, mas foi aqui que ela chegou no fim de 1999 e onde vive até hoje. Outra espécie de salvação vem sendo a fotografia, a linguagem "mais eloquente" para expressar uma poética intimista, que tem como pano de fundo sentimentos de isolamento, crise, depressão, como ela enumera.

 

As imagens criadas por Gordana Manic são sempre em preto e branco. "Na minha fotografia, acho a cor desnecessária, me incomoda", diz a matemática e fotógrafa, de 38 anos. Réquiem, exposição que ela acaba de inaugurar no Museu da Imagem e do Som (MIS), é uma série de 2010 formada por obras em que figuras se tornam quase fumaça em locais escuros, enigmáticos. "Como que embalados por uma música fúnebre, esses diáfanos personagens flagrados na noite por Gordana Manic realizam uma espécie de dança ora sensual, ora macabra", escreve o curador Eder Chiodetto, crítico e professor que vem acompanhando o trabalho da artista.

 

A atual mostra de Gordana Manic integra o projeto Nova Fotografia do MIS, mas, recentemente, seu denso trabalho fotográfico vem aparecendo em exposições e editais. No ano passado, por exemplo, a sérvia participou do Arte Pará Ano 30, conceituado e tradicional salão realizado em Belém (no qual foi contemplada com o Prêmio Aquisição do evento), como também foi selecionada no Programa de Fotografia do Centro Cultural São Paulo. Por meio do concurso, Gordana vai exibir em 2013, na instituição paulistana, obras da série Dentro (2010), autorretratos sutis que realizou em seu apartamento. Ela também acaba de expor na Galeria Ímpar, em São Paulo, a mostra Distante Presente, com curadoria de Mario Gioia.

 

Memória. A fotógrafa chegou a São Paulo, na verdade, por meio da matemática. Em 1998, ela havia participado de um intercâmbio na Universidade Federal de Ouro Preto (Minas Gerais), e quando estouraram os conflitos em seu país, após várias tentativas de destinos, Gordana passou, afinal, na prova para fazer mestrado em matemática na USP. Desde 2008, ela, doutora na disciplina, dá aulas na Universidade Federal do ABC, em Santo André.

 

Mas a fotografia já fazia parte de sua vida, foi descoberta por ela aos 17 anos, ainda na Sérvia. "Comecei a fotografar com uma máquina analógica do meu avô, uma Pratika. Fazia imagens de uma amiga minha, num cemitério, e em outros lugares, e já era uma fotografia desfocada, tremida, experimental", conta Gordana, que também adquiriu o hábito de ela mesma imprimir seus trabalhos.

 

A série Trapped, de 1990, é uma das primeiras que criou. "Queria expressar a revolta das pessoas jovens naquela situação. A gente se esforçava, mas não tinha reconhecimento."

 

Há outras belas pesquisas, como Pretéritos Imperfeitos (1999- 2011), em que se apropria de imagens de estouros de luz durante a guerra nos Bálcãs; ou Ausente (2011), formada por retratos de sua mãe. Como define Gioia, a memória é sempre uma constante no trabalho de Gordana Manic, criadora de uma obra que "transita por reminiscências fugidias, remete a demarcadas faltas, leva a presenças de precária existência, consegue aliar comentários políticos a um olhar introspectivo". "Falo sempre que faço o mesmo trabalho, que é uma continuação de algo que vem de dentro de mim", diz a fotógrafa.

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