Reprodução Dissident Industries Inc./Divulgação
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Foto viva

Exposição no Rio traz videorretratos de celebridades clicadas por Bob Wilson

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

A arte não tem fronteiras no trabalho do norte-americano Bob Wilson - desde que começou a atuar como encenador, nos anos 1960, ele desenvolve uma linguagem própria, que envolve precisão, estilização e a decisão de ignorar completamente a lógica intelectual em favor de outra, que pode ser visual ou estética. Foi o que marcou, por exemplo, a abstração de Einstein on the Beach, a peça músico-teatral que criou em parceria com Philip Glass em 1976; ou ainda Quartett, espetáculo encenado por Isabelle Huppert em São Paulo, em 2009, no qual Wilson exibiu sua maestria na cenotécnica.

"O trabalho de Wilson no teatro é semelhante ao que ele faz em vídeo e vice-versa: ambos são feitos no mais alto padrão em termos de iluminação, cor, fantasia, tempo, qualidade, trilha sonora, e construção do texto", comenta Matthew Shattuck, um dos curadores da exposição Video Portraits de Robert Wilson, que o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro abre na terça-feira. Trata-se de 14 videorretratos em alta definição, ou seja, fotos de celebridades e anônimos, todos caracterizados e com movimentos mínimos e coreografados, embelezados por arranjos cenográficos sofisticados.

Assim, é possível flagrar um descamisado Brad Pitt segurando uma pistola na chuva; ou Johnny Depp maquiado e vestindo peles; ou ainda Steve Buscemi, impávido como um açougueiro. "Um contraste interessante entre a exposição e o teatro é a forma como o público é capaz de interagir com os retratados em seu próprio tempo e ritmo, ao contrário do que acontece em uma peça tradicional", comenta Shattuck, que divide a curadoria com Noah Khoshbin.

"Os videorretratos podem ser vistos nas três formas tradicionais usadas pelos artistas para construir o espaço", afirma Wilson, no texto de apresentação da mostra. "Se eu ergo minha mão diante do meu rosto, posso dizer que é um retrato. Se vejo minha mão a certa distância, posso dizer que é parte de uma natureza-morta, e se a vejo do outro lado da rua, posso dizer que é parte de uma paisagem."

De fato, apesar de seus detratores acreditarem que seu trabalho é frio e nada emocional, Wilson busca meios da arte capazes de revelar a efervescência que há por trás de sua celebração de humanidade. Criado em Waco, no Texas, ele manteve uma relação afastada do pai, um advogado, e, da mãe, lembra-se apenas de ser uma mulher pouco emotiva e muito controladora. Mesmo assim (ou por causa disso), Wilson é um artista que mantém calorosa relação com seus atores.

Os retratos se originam de um trabalho que Wilson realizou nos anos 1970, Video 50. Era uma coleção de fotos de personalidades (como o escritor surrealista Louis Aragon) e também de figuras nada conhecidas, como um padre que Wilson conheceu em um bar, e até de um pato. As imagens foram exibidas na televisão, em galerias, museus, estações de metrô, saguões de hotéis, aeroportos ou até em um relógio de pulso.

A metodologia já era a mesma que norteia a atual exposição. "Ao construir um retrato, o mais importante é estudar o assunto, porque, em última análise, é ele que informa a direção criativa", observa Shattuck. "Isso é feito por meio da revisão de retratos do fotografado, estudando sua biografia, talvez pesquisar um parente ou algo que o indivíduo disse, um acontecimento trágico ou que foi um marco em sua vida, ou ainda conhecer uma obra de arte que ele tem pendurada em sua própria casa."

A partir daí, Wilson busca personagens cuja imagem possa representar o tempo atual. Daí o motivo de unir em um mesmo espaço o mecânico Norman Paul Fleming, o astro Brad Pitt, o cão Celine e a formidável pantera negra Ivory. "Imagino os videorretratos sendo vistos em espaços públicos e também dentro das residências", conta Wilson. "Em casa, eles são como uma janela no cômodo ou o fogo na lareira. São declarações pessoais e poéticas de diferentes personalidades. Um homem da rua, um animal, uma criança, superstars, deuses do nosso tempo."

Bob Wilson não tem medo de fazer coisas belas. Tampouco de desafiar os limites de uma arte cada vez mais fragmentária.

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