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Fábio Porchat
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Foto

 Final de semana passado resolvi fazer algo que já estava evitando por anos: arrumar as minhas fotos digitais no meu computador. Antigamente, láááááááá trás, nos anos 90, as pessoas tiravam fotos e as guardavam em álbuns. Quando alguém queria mostrar alguma fotografia (chamava assim, na época), era só pegar aquele “livro de memórias” e folheá-lo. Os álbuns ficavam guardados em gavetas e eram temáticos. Aquele do nascimento da Alice, aquele das férias em Ubatuba, aquele do ano novo no Rio... Era um evento mostrá-los para as pessoas. Até porque aquelas fotos tinham sido reveladas. Ou seja, dava um trabalhão e custava um dinheirão você ter aquilo ali. 

Fábio Porchat, O Estado de S. Paulo

10 Maio 2015 | 04h00

Mas aí chegou a modernidade e vieram as câmeras digitais. Todo mundo poderia tirar fotos e guardá-las no computador. Não precisava mais mandar para algum lugar transformar o seu rolo em papéis retângulos (ou quadrados pros mais antigos). Era só ter um chip que já vinha na máquina e você poderia fazer quantos cliques quisesse. E aí vieram os celulares com câmera. E o que aconteceu? Nunca mais a gente parou pra prestar atenção nas nossas fotos. 

Em uma viagem de cinco dias havia 3 mil fotos tiradas pela minha mulher. Olhando agora, três anos depois, já não faço a menor ideia do que aquelas fotos querem dizer, onde eu estava, que comida é aquela e por que ela mereceu ter sido “imortalizada”... A facilidade banalizou a recordação. 

Existem dezenas de milhares de imagens no meu computador de viagens que eu nem lembrava que tinha feito. Realmente, não vou mandar imprimir 70 mil fotos para colocar em porta-retratos. A foto que tirávamos em 1990 tinha que ser A foto. Só tinham 24 possibilidades no rolo (36 no máximo) e não dava pra ficar gastando com qualquer coisa. 

Hoje, 24 fotos foram só no aeroporto do Cairo. O que vivemos não está mais na nossa memória, está na memória do computador. E acessar essas memórias dá um trabalhão. Você tem que selecionar uma por uma, salvar numa pasta, dar nome para cada uma delas e tentar se lembrar do contexto. É claro que existem os porta-retratos digitais, mas parece que ali as cenas se tornam tão artificiais. 

Quando pego uma foto na mão ela parece tão mais real, como se fosse um pedaço palpável da minha vida. E o selfie fez todas elas parecerem sempre iguais. Você faz a mesma cara, segura a câmera do mesmo jeito, focaliza muito você e pouco o lugar... Acabou até a interação com uma pessoa qualquer que estivesse passando na rua e que você pedia por favor para ela te fotografar. Passei um final de semana nostálgico. 

Como é legal relembrar tudo o que a gente passou. Como faz bem se ver feliz, em um momento tão bacana que você quis até registrar para não esquecer. Recordar é viver. Mas, hoje em dia, pra recordar tem que se esforçar.

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