Ellie Kurttz/Divulgação
Ellie Kurttz/Divulgação

Fórum itinerante celebra 450 anos de Shakespeare

Projeto especial que reúne exposição fotográfica, palestra, mesa-redonda e masterclasse sobre o poeta inglês vai passar por quatro cidades brasileiras

Daniel Schenker, Especial para o Estado de S. Paulo

09 de abril de 2014 | 18h20

A obra de William Shakespeare (1564-1616) se destaca não “apenas” pela qualidade como pela inovação. Seus textos reúnem um concentrado de tempos. Evidenciam influências da dramaturgia greco-romana, de histórias medievais, do passado de guerras da Inglaterra e do presente de relativa paz no país. O autor não obedeceu às regras previamente instituídas, misturou gêneros (tragédia e comédia) e não escreveu de acordo com as unidades de tempo e lugar. Estas transgressões revoltaram os tragediógrafos do classicismo francês, no século 17, e encantaram os autores do Romantismo, no século 18. Nesta segunda década do século 21, Shakespeare permanece atual, a julgar pela constância com que suas peças são encenadas. Em comemoração aos 450 anos de nascimento do autor, o Fórum Shakespeare desponta com várias atrações – exposição fotográfica, palestra, mesa-redonda e masterclasse.

Projeto itinerante do People’s Palace Projects (PPP), que tem Paul Heritage como diretor artístico, o fórum vai até segunda, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio. Depois segue para Brasília (23 a 28/4), Belo Horizonte (30/4 a 5/5) e São Paulo (7 a 12/5). Os participantes dos eventos não serão necessariamente os mesmos (São Paulo contará com oficinas com o indiano Anirudh Nair). Mas a proposta do fórum – promover intercâmbio entre artistas brasileiros e estrangeiros em torno de Shakespeare – é semelhante nas quatro cidades. 

No Rio, haverá uma oficina para 40 integrantes (selecionados pela Funarte entre cerca de 500 inscritos) com o ator Greg Hicks e o diretor Michael Corbidge, ambos da Royal Shakespeare Company, que também farão masterclasse e exposição com fotos de Ellie Kurttz, brasileira radicada na Inglaterra há 20 anos, que se especializou em imagens de teatro. A programação inclui ainda a mesa-redonda – Shakespeare, Nosso Contemporâneo Brasileiro –, com Heritage, os diretores Amir Haddad e Guti Fraga e a crítica de teatro Barbara Heliodora; e duas palestras – Traduzindo Linguagens e Cultura: de Otelo à A Tempestade, com apresentações de Jerry Brotton e Aimara Resende e mediação da diretora Bia Lessa, e Shakespeare para Além de Shakespeare, com as presenças dos diretores Aderbal Freire-Filho e Enrique Diaz e do escritor Geraldinho Carneiro e mediação da ensaísta e professora Heloísa Buarque de Hollanda. 

No entanto, os espetáculos não são o foco do fórum. Mas a prática não é desprezada no evento, que joga luzes sobre Shakespeare por meio do encontro com diversos profissionais vinculados à obra do dramaturgo e do resultado das oficinas. “A última noite será particularmente importante porque os alunos das oficinas mostrarão o trabalho na masterclasse”, frisa Paul Heritage. Em seu workshop, Greg Hicks explorará Macbeth através dos ritos da capoeira. Para tanto terá o auxílio do mestre brasileiro Carlo Alexandre. “Trata-se de uma pesquisa de Hicks, que acredita na capoeira não só na cena como no treinamento, na medida em que distancia o ator do eixo cotidiano”, informa Heritage.

Essa abordagem inusitada da tragédia contrasta com a ocasional preocupação em encenar as peças de Shakespeare através de um respeito tradicional. “É claro que não há uma única maneira de montar Shakespeare na Inglaterra e outra no Brasil. Mas lá o processo tende a iniciar pelo texto. Na Royal Shakespeare Company consideram que as pistas estão na peça. Na Inglaterra, temos um problema de traição em relação a Shakespeare. Talvez ainda seja difícil para os ingleses a assimilação de propostas teatrais contemporâneas. No Brasil há um teatro de pesquisa mais forte. O fato é que a obra dele pertence ao mundo”, declara Heritage, que produziu as apresentações de Romeu e Julieta, que nasceu da parceria entre o Grupo Galpão e o diretor Gabriel Villela, no Globe Theatre, em Londres, em 2000 e 2012. E Heritage evoca o desembarque do Grupo Nós do Morro, em 2006, em Stratford-Upon-Avon, terra natal de Shakespeare, com Os Dois Cavalheiros de Verona, montagem de Guti Fraga.

Vale mencionar encenações norteadas pela inquietação, como as versões de Hamlet assinadas por José Celso Martinez Corrêa (Hamlet), Aderbal Freire Filho (Hamlet) e Enrique Diaz (Ensaio. Hamlet). Outro diretor convidado para fazer parte da programação do fórum que montou textos de Shakespeare (O Mercador de Veneza e Noite de Reis) ao longo dos anos é Amir Haddad. Do mesmo modo que com os demais autores sobre os quais vem se debruçando nos últimos tempos, Haddad privilegia o humor em Shakespeare. “Não quero mais as tragédias, apesar de gostar de personagens como Ricardo III e Hamlet. Priorizo as comédias, que falam sobre sexualidade e a possibilidade de felicidade.” 

Muitos espetáculos serão lembrados no fórum com a exposição de Ellie Kurttz, com fotografias de encenações da Royal Shakespeare Company, do Shakespeare’s Globe e de grupos estrangeiros que estiveram nos palcos ingleses com montagens de peças do dramaturgo. “O objetivo é realçar a diversidade de produções de Shakespeare”, diz Kurttz. A mostra Shakespeare/Ellie Kurttz traz registros de bastidores, uma vez que a fotógrafa acompanha todo o processo de trabalho até a estreia. A concepção visual ficou a cargo do cenógrafo Gringo Cardia.

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