Fórum do cinema recebe cineasta francês

Cinéfilos de carteirinha sabem quemé Robert Guédiguian. Embora já tenha dez filmes em seu currículo ele ainda é pouco conhecido no Brasil, onde só Marius etJeanette foi lançado pela Mostra Internacional de Cinema SãoPaulo e depois exibido no horário da Mostra na TV, na Cultura.Guédiguian desembarca sábado no Brasil. Vem participar do FórumSocial Mundial de Porto Alegre, o encontro internacional que vaireunir, na capital gaúcha, a fina flor da intelligentsia daesquerda de todo o mundo. Não por acaso, são militantes domovimento antiglobalização. É o tema embutido no cinema deGuédiguian. Por sua preocupação social, ele já foi chamado de KenLoach francês. É tão grande cineasta quanto o diretor inglês quese recusa a apagar a chama da utopia num mundo cada vez maispolarizado pelas palavras de ordem do neoliberalismo e daglobalização. Se duvida, espere até dia 8 para ver A CidadeEstá Tranqüila. É o novo filme de Guédiguian. Será o segundogrande lançamento do ano que recém começa. O primeiro é OSenhor dos Anéis, de Peter Jackson. Dois filmes diversos emtécnica e estilo: um, ligado à estética dos efeitos especiais, aum conceito do fantástico e do maravilhoso; o outro que bate natela como um anúncio de tempestade - a grande tempestade queestá a formar-se e talvez sobrevenha se, como diz Guédiguian,"não conseguirmos humanizar esse mundo que prefere apostar nasdesigualdades." Seu discurso é de esquerda. Sua presença no País estáligada ao Fórum Mundial do Audiovisual, embutido no Fórum SocialMundial. O evento ocorre no domingo e na segunda-feira em PortoAlegre. É coordenado por Assunção Hernandes, presidente doCongresso do Cinema Brasileiro. Assunção declarou à reportagemque o Brasil precisa ter uma política mais agressiva para venderfilmes no exterior. Para isso, precisa entender-se com outrospaíses que também lutam pela quebra da hegemonia de Hollywood.Experiência - Guédiguian vem relatar a experiência francesa.Duas vezes presidente da Associação Francesa de Realizadores,ele cita números: o cinema francês dispôs de 40% do mercadonacional no ano passado. Parece impossível no Brasil, onde aparticipação nacional no próprio mercado não chega a 10%. Ocinema brasileiro é um estranho no próprio ninho, um alienígenano próprio país. Política - Como se muda esse estado de coisas?Guédiguian é curto e grosso: "Com vontade política." Nãoadianta querer atribuir ao mercado uma função reguladora daatividade cinematográfica, até porque esse mercado é ocupadopelo produto estrangeiro, leia-se Hollywood. É preciso quebrar ahegemonia, ele diz. Sabe que não é fácil. O cinema não é só umaatividade artística e econômica importante para osnorte-americanos. É a ponta de lança da sua geopolítica paraconsolidar os EUA como o poder imperial do século 21. Aindústria hollywoodiana é embasada em medidas protecionistas elobbys gigantescos. Mas Golias não é indestrutível, garanteGuédiguian. Quando fala em vontade política ele está pronto adefender o que não deixa de ser um pacto. Pegue-se o caso daFrança, por exemplo. Existe lá um apoio estatal à atividadecinematográfica e sem esse apoio o cinema francês provavelmentenão teria a força relativa de que dispõe no quadro da Europa.Além desse apoio oficial, há uma colaboração entre cinema e TVque também é decisiva, mas nada disso seria suficiente se nãohouvesse respaldo social. O público francês gosta do seu cinema,de se ver representado nas telas. Guédiguian acha que qualquertipo de solução será difícil se o cinema brasileiro não tiver omesmo apoio do conjunto da sociedade. Para isso é precisoauto-estima e educação.Filho de pais operários, o diretor nasceu em Marselha, há 48anos. Militou no movimento sindicalista e no Partido ComunistaFrancês, do qual se desligou em 1981. Começou aí sua trajetóriano cinema, hoje coroada por dez filmes que revistas como Cahiersdu Cinéma e Positif colocam nas alturas. Há um cinema francêsverborrágico, pequeno burguês e existencialista que nãointeressa muito aos espectadores de fora do país. E há osdiretores viscerais, cujas idéias de cinema e de mundoconvulsionam as telas de qualquer país nos quais sejam exibidos.Guédiguian é da mesma estirpe de Bruno Dumont, autor doimpressionante A Humanidade. A Cidade Está Tranqüila poderia ter esse título."Queria fazer um amplo painel sobre a cidade e seus problemashumanos, sociais e topográficos." Não uma cidade qualquer, masMarselha. O filme abre-se com uma tomada panorâmica da cidade,vista a distância, a partir do mar. De fundo, um solo de piano.Guédiguian ama Marselha, embora viva em Paris. É o cenáriopreferencial de seus filmes. Ao contrário do que sugere o título, a cidade não está tranqüila. Está prestes a explodir. Uma mãese prostitui e ministra droga à própria filha para salvaguardara garota, que está se destruindo nas ruas. Um intelectualdesiludido faz análises em que o povo, outrora revolucionário, émostrado agora como reacionário. Esse homem não tem mais desejopela mulher. Ela se liga a um emigrante africano. A galeria depersonagens inclui um matador profissional, um motorista de táxique só consegue se relacionar com prostitutas e o pai da garotaviciada, ligado à violência de direita. Desespero - O diretor conta que o filme surgiu a partirde uma imagem: a panorâmica sobre a cidade. Depois, vieram aspersonagens de mãe e filha e depois vieram as demais figuras,compondo o amplo painel que ele queria criar. Ariane Ascaridefaz a mãe, Gérard Meylan é o assassino profissional. Ariane éuma atriz extraordinária. Ganhou o César, o Oscar do cinemafrancês, como Jeanette, a mulher solitária que luta para criardois filhos com seu magro salário. O que ela faz, como a mãesofredora de A Cidade Está Tranqüila, é uma opção nascida dodesespero mais sombrio, que atinge o espectador como um soco noestômago. Atores são fundamentais. O cinema como que se dilata naepiderme deles. Os atores de A Cidade Está Tranqüilaintegram o que não deixa de ser a trupe de Guédiguian. Comungamdas mesmas idéias. "Formamos uma família", ele diz. Seu filmeé poderoso. Desde logo, já tem seu lugar garantido entre osmelhores do ano. Guédiguian acha que hoje, mais que nunca, épreciso acreditar na utopia - uma utopia não comunista e, comcerteza, não globalizadora. "A globalização é uma invenção dospaíses ricos para eliminar as barreiras à livre circulação deseus produtos", ele diz. Parece mentira, mas nestes temposcínicos em que a palavra humanismo anda meio desacreditada,Guédiguian faz questão de se definir como humanista. Ele nãodesistiu de mudar o mundo com sua arte. Objeção - Moderninhos talvez façam a Guédiguian a mesmaobjeção que revelam em relação a Ken Loach. O autor francês,como seu colega inglês de filmes como Terra e Liberdade,seria um retrógrado. Não é verdade. Ambos são lúcidos e fazemfilmes poderosos, apenas são críticos dessa tendênciaavassaladora que se chama globalização. Sem humanização não hásolução, garante Guédiguian. Como duvidar dele depois de ver A Cidade EstáTranqüila? O filme deveria estrear na próxima sexta-feira em São Paulo,até para aproveitar a presença do cineasta marselhês no Brasil.A estréia foi transferida para o dia 8, o que talvez não sejamuito bom. Neste dia, o Brasil inteiro começa a sambar. Oproblema é que, logo depois do carnaval, virá o anúncio do Oscar com sua enxurrada de lançamentos. Será um crime se A CidadeEstá Tranqüila cair na vala comum ou não tiver do público edos críticos a acolhida que merece. É cinema social, visceral. Eé artisticamente denso e forte. Há certos títulos que são a própria negação do que osautores querem dizer. A vida não é doce no clássico de FedericoFellini. A cidade não está tranqüila no de Guédiguian. Essacidade é Marselha, mas é ilusório tentar pensar que aquilo que ocineasta mostra está ocorrendo somente lá. Drogas, prostituição,racismo, violência. Há um mundo em convulsão sob uma aparênciade normalidade. Neste quadro, o diretor embute sua discussãosobre a família no limiar do século 21. Alguns dos maiores filmes da história do cinema tratamda família, como célula básica da sociedade. Pense no magníficoRocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti. A família estámudando, já disse Pedro Almodóvar em Tudo Sobre Minha Mãe.Guédiguian também sabe que isso está ocorrendo. Faz cinema paracaptar as mudanças.

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