Fortes Vilaça faz "prévia" da Bienal

A segunda fase da série de mostras coletivas Rotativa, que a Galeria Fortes Vilaça está apresentando para o público, funciona como uma pequena prévia da 25.ª Bienal de São Paulo, pois exibe obras de três artistas, mais os grupos Los Carpinteros e Chelpa Ferro, que no fim de março participam do mais influente evento das artes plásticas do mundo depois da Bienal de Veneza.O alemão Franz Ackerman, o português Julião Sarmento, o brasileiro José Damasceno, além dos cubanos dos Los Carpinteros e os cariocas do Chelpa Ferro, todos selecionados para a megaexposição paulistana, trazem obras inéditas para esta Rotativa Fase 2, que também oferece trabalhos recentes de Lia Menna Barreto, Efraim de Almeida, Leda Catunda, Nuno Ramos, Meyer Vaisman, Luiz Zerbini, Rosangela Rennó, Valeska Soares e Rivane Neuenschwander.É de Lia Menna Barreto o trabalho mais perturbador da coletiva: Cabeças do Avesso. A artista gaúcha, conhecida pelas relações seminais, por vezes cruéis, que estabelece entre o universo infantil e a tradição da natureza-morta, desta vez acentua o caráter de perversão de sua obra. Ela mostra uma série de cinco cabeças deformadas de bonecas de plástico, viradas do avesso, com grandes olhos saltados e vidrados, criando uma imagem repulsiva - e assustadora, se lembramos que a artista já declarou: "Eu dou vida às coisas inanimadas." A galeria diz que as cabeças podem ser manipuladas pelo público, mas poucos devem se arriscar. Perto dessa nova produção de Menna Barreto, o excêntrico Farnese de Andrade (1926-1996), outro artista brasileiro que olhava a infância com olhos tortos, fica parecendo um velhinho inocente.No mezanino é exibida a instalação sonora Onda Quadrada, do Chelpa Ferro. Sobre enormes caixas de som espalhadas pelo chão, dezenas de bolinhas de pingue-pongue vibram caoticamente, de acordo com as variações de freqüência do equipamento, que o espectador pode operar. Como é característica da poética do grupo, a obra faz uma referência aos sons eletrônicos e industriais, a partir de um procedimento pop, no caso do Chelpa criando novos usos e significados para antigos e obsoletos equipamentos eletrônicos. O Chelpa é formado por quatro integrantes: Luiz Zerbini e Barrão (artistas plásticos da Geração 80), o produtor musical Chico Neves e o editor de imagens Sérgio Mekler.Zerbini também participa individualmente desta Rotativa com um trabalho da série Pinturas dentro d?Água, que ele já expôs na mesma galeria em 1999, na individual Pedra não É Gente ainda, que marcou uma mudança de rumos em sua trajetória. Na época, ele trocou a precisão dos pincéis por uma técnica chinesa em que o papel é tingido embaixo da água, usando uma solução de algas e tintas. O resultado é uma pintura abstrata vibrante, coloridíssima, que carrega as marcas da fluidez incontrolável do meio aquoso.A coletiva é ainda oportunidade rara de ver uma criação do português Julião Sarmento, dono de sala especial na 25.ª Bienal, que não seja uma pintura. Para tratar da precariedade do discurso amoroso e do embate atração/repulsa, a instalação Vox reúne o retrato de uma bela mulher, que olha fixamente o espectador, a uma gravação de voz feminina. O visitante coloca um fone de ouvido e escuta frases contraditórias, ditas quase ao mesmo tempo. As juras de amor ("Não vá embora, eu não posso ficar sem ti") são interrompidas o tempo todo por agressões do tipo "Você é um verme, eu te odeio".Rotativa Fase 2. De terça a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 10 às 17 horas. Galeria Fortes Vilaça.Rua Fradique Coutinho, 1.500, tel. 3032-7066. Até 9/3.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.