Fortaleza e a receita do veneno antimonotonia

A ideia de festivais como o Cine Ceará é propor alternativas à mesmice do circuito exibidor. Não está sozinho nessa missão. Nos festivais de cinema que formam o calendário brasileiro, cerca de 200, segundo as últimas estimativas, muitos se conformam em repetir títulos já batidos, ou apresentar "mais do mesmo", produções que se acomodam na monotonia temática e estética palatável ao grande público. Mas festivais como o de Tiradentes e Brasília, para citar apenas dois, apostam no novo e no imprevisível, assim como o de Fortaleza.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2010 | 00h00

Essa busca pelo diferente dá-se em dois níveis. Primeiro, pelo recorte ibero-americano, que privilegia títulos desprezados pelos distribuidores patrícios. Pudemos assim descobrir pérolas como o mexicano Alamar e o espanhol A Mulher Sem Piano, que dificilmente chegarão ao circuito brasileiro, tolamente orgulhoso de ser um dos mais diversificados do mundo. Segundo, por um diálogo intenso com os institutos de cinema de Cuba, ou seja, o Icaic (Instituto Cubano del Arte y Industria Cinematograficos), e a Escuela de Cine y TV de San Antonio de los Baños. Wolney Oliveira, o diretor do festival, lá estudou. Só para avaliar a participação da Escuela no Cine Ceará, basta mencionar que nada menos que três longas são dirigidos por ex-alunos ? El Último Comandante (Vicente Ferraz), O Amor e Outros Demônios (Hilda Hidalgo) e Memória Cubana (Alice Andrade). Daniel Diaz Torres, diretor de outro concorrente, Lysanka, é professor da Escuela.

Além disso, um grupo local, de jovens que formam a cooperativa Alumbramento, "tomou de assalto" o Cine Ceará. Além do notável longa Estrada para Ythaca, apresentou vários curtas na mostra competitiva, como A Amiga Americana, Cidade Desterro e Supermemórias. São projetos de risco, inovadores, preocupados com a pesquisa da linguagem.

Ou seja: o cinema não se resume à monotonia da distribuição comercial. O novo existe. Só precisa de oportunidades para aparecer.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.