Formação e inserção

No título dos relatos sobre brasileiros e dos tratados sobre nossa sociedade, escritos e publicados no finado século 20, há um vocábulo recorrente. Refiro-me a "formação". Citemos alguns exemplos notáveis: Minha Formação (1900), de Joaquim Nabuco, Formação do Brasil Contemporâneo (1942), de Caio Prado Júnior, Formação da Literatura Brasileira (1957), de Antonio Candido, e Formação Econômica do Brasil (1959), de Celso Furtado.

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2012 | 03h10

Seria longa a tarefa de apreender os significados do vocábulo recorrente e dos respectivos contextos. Tampouco seria sensato adotar um significado para "formação" em detrimento dos outros. No entanto, caso se recorra ao conceito de "episteme" como definido na história das ideias por Michel Foucault, pode-se considerá-lo elástico na sua rentabilidade discursiva. E intenso na multiplicidade de visões históricas e de versões identitárias de Brasil, a que ele deu curso. Ao se elevar à condição de paradigma, "formação" funda e estrutura no século 20 brasileiro os múltiplos saberes confessionais, artísticos e científicos que compartilham - a despeito de suas especificidades e apesar de versar sobre objetos diferentes - determinadas formas ou características gerais do nosso ser e estar em desenvolvimento.

De posse do paradigma formação, o analista destrinça não tanto os discursos acabados sobre o brasileiro ou a sociedade brasileira, sobre a nossa literatura ou a nossa economia, de responsabilidade de X ou de Y, mas as condições materiais e linguísticas da produção de um feixe exemplar de discursos afins e complementares. O jogo semântico é inevitável. No sentido que lhe empresta Caio Prado Jr., o de construção do Brasil moderno, "formação" reativa uma rede discursiva de carga histórica que arrebata o adolescente letrado no período de sua "formação", agora tomada no sentido que lhe empresta Joaquim Nabuco, o do amadurecimento pessoal e cultural do cidadão brasileiro. Neste caso, formação confunde-se com o conceito europeu de "self-fashioning" (automodelagem), desenvolvido por Stephen Greenblatt em leitura das peças de Shakespeare (Renaissance Self Fashioning, 1980).

No século 19 brasileiro, quando o discurso propriamente colonial europeu perde sua razão de ser e sua forma, ele é substituído por uma força discursiva pós-colonial, semiautônoma, que explora sua eficácia civilizacional nos efeitos pragmáticos da linguagem. Benedict Anderson cunhou o termo "comunidade imaginada". Dissemina-se um leque de discursos subjetivos e objetivos, originais e concorrentes, que levam avante, graças ao impulso do paradigma formação, a autorreflexão sobre a identidade do sujeito autônomo (o brasileiro) e a descrição objetiva do espaço social e político, emancipado e informe (o Brasil), que passa a ser e estará sendo bem ou mal governado por nós em liberdade.

Formação vem qualificada, seja por possessivo (minha/nossa), seja por adjetivo pátrio (brasileiro), seja finalmente por disciplina acadêmica (literatura, economia, etc.). Na hipótese derradeira, o discurso de formação - esteja ou não o vocábulo no título do livro - é dado como agônico e faz sentido discutir sua rota. Ao recorrer à teoria finalista, o historiador alerta para os equívocos ideológicos na análise do desenvolvimento nacional. Na evolução do colonial e na formação do nacional, o sujeito e o espaço da governabilidade vieram sendo recobertos e compreendidos por "ideias fora do lugar". A discussão finalista não opera um corte epistemológico, para retomar Foucault. Apenas almeja corrigir a órbita liberal, em que os discursos de formação, necessariamente identitários, estiveram sendo produzidos e por onde circulavam em infração.

O problema do desenvolvimento nacional nunca deixará de ser alicerce e impulso para a reflexão, daí que a agonia do discurso de formação seja mero cansaço epistemológico. Este, no entanto, assinala que o paradigma está a perder a condição de prioritário. A exaustão deriva de transformações significativas na definição de prioridades nacionais, das prioridades materiais no novo milênio que exigem outro feixe de discursos afins e complementares, que constituirão novo paradigma. As prioridades lançam outra perspectiva de pesquisa e, sugestionadas por ela, produzem-se novas visões e versões do cidadão brasileiro e da nossa sociedade. Tendo sido esclarecido (e não resolvido) o modo como o sujeito brasileiro se automodelou como cidadão e acomodou a emancipação de uma sociedade moderna nos trópicos, delega-se hoje ao Estado nacional democrático papel e funções internacionais. Cosmopolita, a nação está habilitada a tomar assento no plenário das nações. Automodelado, o sujeito discursivo - confessional, artístico ou científico - pode e deve dar-se ao luxo da autocrítica e da crítica em novo paradigma.

A iminência do corte epistemológico nos leva a detectar um buraco de grandes proporções no discurso de formação, que foi escavado pela ignorância no tocante a novas questões e a novos objetos. Hoje, a produção discursiva deve fundar e disseminar novo paradigma - a que ouso nomear como o da "inserção".

Faz-se urgente dar uma posição à "inserção da linguagem-Brasil em contexto universal", para retomar palavras premonitórias de Hélio Oiticica no texto Brasil Diarreia (Arte Brasileira Hoje, 1973). Inserir a linguagem-Brasil em contexto universal traduz a vontade de situar um problema que se alienaria fosse ele local, pois problemas locais - se se fragmentam quando expostos a uma problemática universal - não significam nada. Tornam-se irrelevantes se situados somente em relação a interesses locais. E Hélio conclui: "A urgência dessa 'colocação de valores' num contexto universal é o que deve preocupar realmente àqueles que procuram uma 'saída' para o problema brasileiro."

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