Forma de contar define uma história, diz Nélida Piñon

A escritora carioca Nélida Piñon acredita que a literatura pode ser impregnada "de certo obscurantismo poético", sem se tornar "incompreensível". Em entrevista coletiva concedida hoje em Oviedo, na Espanha, a autora de Vozes do Deserto - seu livro mais recente - disse que sua obra é marcada, antes de tudo, pela forma com que as histórias são contadas. Em Oviedo, a atual dona da cadeira número 30 da Academia Brasileira de Letras receberá o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras, na próxima sexta-feira."A maneira de contar uma história a define, da mesma forma que a linguagem define o ideal da literatura", explicou a escritora, nascida no Rio de Janeiro, em 1937. A escritora, que se definiu como uma "amante" da literatura, disse que está sempre produzindo. Atualmente, trabalha em três obras. Uma delas, em fase final, é um livro de ensaios, cujo título será Homero e eu. De acordo com a autora, a conclusão da obra foi atrasada por causa do Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras, que "agitou" sua vida.Além de ganhar o Príncipe de Astúrias este ano, Nélida conquistou com seu livro Vozes do Deserto (Record), o prêmio de melhor romance do Jabuti 2005, um dos principais da literatura brasileira. O texto revela a mulher oculta por trás do mito da mais famosa narradora da literatura oriental - Scherezade. O livro é resultado de um trabalho de cinco anos às voltas com a cultura árabe, lendo o Corão (livro sagrado dos muçulmanos) e estudando a história e a mitologia dos povos do Islã. "Também tenho praticamente terminado um trabalho que me atrai muito, e que se baseia em uma série de aforismos e reflexões cujo objetivo é detectar a origem das idéias", acrescentou Nélida. O terceiro livro é um romance, do qual preferiu não adiantar o conteúdo. "Estou convivendo com três linguagens diferentes, o que é muito estimulante. Tento avançar nelas em meio à intensa vida que levo."Para Nélida, cada livro nasce de uma forma diferente e "o mundo da linguagem" é uma de suas principais preocupações. "Uma das diferenças da literatura é a metamorfose que as palavras ganham quando são contadas", disse a autora, que encontra uma visão "poética" baseada na "grande fabulação humana" em sua linguagem. A escritora lembrou ainda que sua obra foi tachada muitas vezes de "vanguardista", mas ressaltou que tem muitas dúvidas sobre a concepção desse conceito. "O que sempre soube é que a linguagem é tão poderosa que só através dela poderia dizer tudo o que pensava; é como se houvesse dentro da literatura uma visibilidade e uma invisibilidade, algo que pode e não pode ser tocado, a grande ambigüidade do texto." Autora de obras como Tebas do meu Coração (1974) e A República dos Sonhos (1984), Nélida destacou seu interesse pela ilusão na literatura, definida como o "acordo tácito e misterioso que se estabelece entre um livro e o leitor". "O livro tem que convencer o leitor de que é verossímil no sentido de que é aceitável, já que a ficção é um exercício de extremada liberdade", ressaltou. Para ela, este é o objetivo máximo de qualquer obra de arte: "Que se fundam todos os interesses humanos."Quanto à lei brasileira que torna obrigatório o ensino do idioma espanhol no Ensino Médio em todas as escolas públicas e privadas, Nélida Piñon acredita ser essa uma iniciativa interessante. "Isso facilitará a entrada dos jovens num universo tão rico e poderoso como o do espanhol". Além disso, para a escritora, o fato de o espanhol não ser falado no Brasil isolou o país na região ibero-americana, assim como a literatura nacional. Mas a escritora sugeriu também o ensino do português nos outros países latino-americanos. Nélida Piñon é a primeira autora com obras em língua portuguesa a ganhar o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras. A escritora deverá discursar em português na cerimônia de entrega dos prêmios.

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