Força e franqueza nos versos

Existe uma arquitetura imponente nos versos e aspirações de Carlinhos Vergueiro. Uma escola que não esconde o rebuscamento, o raciocínio lógico e a limpidez dos arranjos.

O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2012 | 02h07

O canto é declamado, usufrui de graves entorpecidos por uma poesia valente que celebra a vida, lamenta os desamores e reverencia gênios do samba, como Noel Rosa.

A filosofia futebolística, como era de se esperar do boleiro aplicado que é, dá caldo para reflexões extracampo. "É melhor perder bonito / Do que ganhar feio", diz Mina, uma das melhores do álbum. Reflete a bravura do romântico atordoado. O amor, ora, é jogo perdido antes de qualquer drible bem feito, do apito do juiz ou da tática apurada.

Sambístico, Vida Sonhada se atém a estas janelas do tempo vivido e do tempo imaginário. Tenta, sem deslumbramento, diminuir o abismo entre o devaneio e a realidade. Evita, também, transformar a canção doída em bula sentimental. "Pra resumir/Em sete notas de canção/Amar é nunca discutir a relação", traz os versos da melancólica Chorar no Fim.

Se a lírica tem manejo e requinte, os arranjos sofrem do mesmo problema do disco mais recente de Chico Buarque, um de seus parceiros e amigos. Imprimem um acabamento cerimonioso demais às canções. Como se os assuntos precisassem de ambiente de conservatório. Cai no clichê de uma MPB suntuosa, distante da temática urbana dos temas.

É claro que a abordagem não chega a minar um disco de bons sambas, alguns deles de levada e discursos empolgantes. Sem Refrão, que assina com sua filha Dora Vergueiro, é uma destas pérolas. "Bom te encontrar pra distrair o coração / Sempre tem saída na batida do meu som", diz um dos trechos da letra.

A última do disco, Samba da Vida, é a que melhor vai se apoderar do lado mais expansivo e alegre do gênero, com instrumentação carregada e clima de samba-enredo.

Carlinhos Vergueiro é um homem da tradição, um artista convicto de que a execução e composição apurada valorizam o impacto da obra. Vida Sonhada se vale em grande parte por isso, mas ganha em força e relevância pela franqueza de seus versos. / E.B.

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