Força da paisagem e uma vitória sobre o maniqueísmo

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h07

Miguel Littín foi um dos homens de Salvador Allende para o cinema. Pertencente à geração de Raul Ruiz (depois Raoul) e Patricio Guzmán, ele realizou em 1969 o maior filme feito no Chile e um dos mais belos do cinema latino-americano, El Chac al de Nahueltoro, com Nelson Villagra. Depois, no exílio ou de volta ao país (primeiro como clandestino), Littín seguiu uma carreira errática.

Filmes políticos, sempre. Desiguais, irregulares, quase sempre. La Tierra Prometida, Actas de Marusia, El Recurso del Método, La Viuda de Montiel. Dawson Ilha 10 trata do pós-golpe militar. Com o general Augusto Pinochet encastelado no poder - e iniciando o reinado da repressão que todo mundo sabe -, o regime desmantelou, ou tentou desmantelar, a ferro e fogo o sonho da Unidade Popular. O gabinete de Allende foi enviado para a ilha prisão do título.

É curioso que justamente hoje a TV paga (o TCM) esteja mostrando, à tarde, O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões, um John Ford dos anos 1930, sobre outra ilha prisão. Na de Ford, acusado de complô com o assassino de Abraham Lincoln, o dr. Samuel Mudd é confinado na ilha dos tubarões. Na de Littín, a Marinha chilena isola os homens e os confina, mas eles já estariam confinados pela paisagem.

Nos confins da Terra do Fogo, as temperaturas são tão baixas que os prisioneiros correm o risco de morrer gelados. E eles se indagam - onde foi que erramos? Lutam para sobreviver. É o melhor filme, a melhor ficção de Littín desde O Chacal. O maior mérito de Dawson Ilha 10 é evitar o maniqueísmo. Littín toma partido, mas o carcereiro não é um vilão (nem um monstro). É humanizado. O diretor acertou a mão.

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