Força da natureza

Só os deuses sabem o que pode acontecer quando a feiticeira Maria João se juntar ao violão de Guinga

JULIO MARIA / OLINDA, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2012 | 04h27

A imagem de uma mulher recebendo o espírito de um caboclo cantador não era exatamente o que um grupo de freiras esperava assistir no sagrado altar do Seminário de Nossa Senhora da Graça de Olinda, no Recife. Mas algo as segurava ali firmes, atentas, com a respiração contida e nenhuma vontade aparente de jogar água benta no que quer que fosse aquilo. Até porque o caboclo ia e vinha no corpo da senhora sem avisar, às vezes virando Billie Holliday, Betty Carter, Ella Fitzgerald, Elis Regina e até uma cantora de fado. Blusa lilás e saia azul com rosa, tamanco alto e maquiagem forte, a mulher cantava e se contorcia. Sua voz escalava montanhas, descia ladeiras e fazia com cada canção um ritual de carga técnica e emotiva que raras vezes se vê em uma única criatura. O que segurava as freiras e outras mil pessoas nos bancos de madeira de 130 anos do Seminário de Olinda manteria imóvel o próprio papa. A voz de Maria João era bela demais para não ser coisa de Deus.

Ao lado do pianista Mario Laginha, a impressionante cantora portuguesa fez turista perder o rumo da pousada em sua passagem pela Mimo, a mostra de música instrumental patrocinada pelo BNDES e realizada em patrimônios históricos, sobretudo igrejas, de Ouro Preto, Olinda, Recife e João Pessoa. Sua entrega incontrolável a si própria criou uma plateia atônita e comovida durante as quase duas horas em que o altar virou palco. Maria João chegou com uma extensão de voz elástica que parecia conseguir dar a volta ao mundo em oito notas e um domínio harmônico de trompetista de jazz que a deixava à vontade para entrar em qualquer encrenca proposta pelo piano de Laginha. Uma força da natureza que ela mesma não consegue explicar. "Eu apenas chego lá e canto", disse ao Estado, em entrevista no hotel de Olinda em que ficou hospedada. Um reducionismo teórico que nada combina com o que se viu na noite anterior.

Maria João estará hoje e amanhã no Sesc Santana, sem Laginha, para se apresentar ao lado do violonista Guinga, um encontro com enorme potencial para repetir o feitiço que pairou sobre a plateia de Olinda. Guinga já se impressionou com a portuguesa nos poucos ensaios que fizeram juntos. "Deu tão certo que estamos pensando em levar isso pelo mundo", diz o violonista. Maria João também tem lembranças do parceiro. "Meu Deus, como ele fala palavrão! Mas juntou comigo, outra desbocada, e deu nisso", diz sorrindo.

Pois é, deu nisso. O grande nome da música contemporânea portuguesa construiu sua imensa voz ouvindo jazz. Filha de mãe moçambicana e pai português, nunca se contentou com a extensão já generosa que a natureza lhe deu. "Quando dou aulas, digo a minhas alunas para treinarem nas regiões mais desconfortáveis." Em vez de se trancar no quarto para estudar três horas de canto por dia, pratica aikidô. "Faço isso há trinta anos. Foi o que me deu as bases para cantar, me ensinou a respirar, a inspirar e a ter postura."

Ao cantar antes de Betty Carter em um festival de música na Alemanha, Maria João percebeu que deveria ir mais longe, que não sobreviveria apenas cantando standards de jazz. Passou então a compor com Laginha e atingiu uma musicalidade inclassificável. Como se várias mulheres habitassem uma só, Maria João quase que se descontrola quando está no palco. Ao descer dele, no entanto, enterra os dois pés no chão. "Magia? Que nada. Aquilo é fruto de muito, mas muito esforço."

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